Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e5c01
Aconteceu mais de uma vez: ele me abandonou. Como todos os outros. O quinto. A gente já estava junto há mais de um ano. Parecia que dessa vez seria para sempre. Mas não: ele desapareceu de repente, sem deixar rastro. Quando me dei conta, fiquei horas ligando sem parar – mas só chamava, chamava, e ninguém atendia. E então fiz o que precisava ser feito: bloqueei a linha.
A verdade é que nenhum telefone celular me suporta. Já tentei de todas as marcas e operadoras, apenas para descobrir que eles são todos iguais: na primeira oportunidade, dão no pé. Esse último aproveitou que eu estava distraído e não desceu do táxi junto comigo. Ou será que ele já tinha pulado do meu bolso no momento em que eu embarcava no táxi? Tomara que sim. Depois de fazer o que me fez, quero mais é que ele tenha ido parar na sarjeta. [...] Se ainda fossem embora do jeito que chegaram, tudo bem. [...] Mas já sei o que vou fazer. No caminho da loja de celulares, vou passar numa papelaria. Pensando bem, nenhuma das minhas agendinhas de papel jamais me abandonou.
Nesse fragmento, a fim de atrair a atenção do leitor e de estabelecer um fio condutor de sentido, o autor utiliza-se de
primeira pessoa do singular para imprimir subjetividade ao relato de mais uma desilusão amorosa.
ironia para tratar da relação com os celulares na era de produtos altamente descartáveis.
frases feitas na apresentação de situações amorosas estereotipadas para construir a ambientação do texto.
quebra de expectativa como estratégia argumentativa para ocultar informações.
verbos no tempo pretérito para enfatizar uma aproximação com os fatos abordados ao longo do texto.
Official Explanation / Community Explanations
A resposta correta é a que aponta o uso de frases feitas na apresentação de situações amorosas estereotipadas para construir a ambientação do texto. O autor inicia o texto com expressões típicas de relatos amorosos, como "ele me abandonou", "a gente já estava junto há mais de um ano", "parecia que dessa vez seria para sempre", que remetem a clichês de desilusões amorosas. Essa estratégia cria uma expectativa no leitor, que inicialmente acredita tratar-se de um relacionamento humano, mas depois descobre que o "abandono" é de um celular. O uso dessas frases feitas estabelece um fio condutor de sentido, conduzindo o leitor a uma surpresa ao final.
A alternativa que menciona a primeira pessoa do singular está incorreta porque, embora o texto seja narrado em primeira pessoa, isso não é o principal recurso para atrair a atenção ou estabelecer o fio condutor; a subjetividade é um efeito, mas não a estratégia central.
A alternativa que cita a ironia está incorreta porque o texto não é irônico; ele utiliza uma comparação inusitada entre relacionamentos amorosos e a relação com celulares, mas sem tom irônico.
A alternativa que fala em quebra de expectativa está incorreta porque, embora haja uma quebra de expectativa (o leitor descobre que se trata de um celular), a estratégia principal não é ocultar informações, mas sim construir uma ambientação com frases feitas.
A alternativa que menciona verbos no pretérito está incorreta porque o uso do pretérito é comum em narrativas e não é o recurso específico que atrai a atenção ou estabelece o fio condutor de sentido.