Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e5c01
A Casa de Vidro
Houve protestos.
Deram uma bola a cada criança e tempo para brincar. Elas aprenderam malabarismos incríveis e algumas viajavam pelo mundo exibindo sua alegre habilidade. (O problema é que muitos, a maioria, não tinham jeito e eram feios de noite, assustadores. Seria melhor prender essa gente – havia quem dissesse.)
Houve protestos.
Aumentaram o preço da carne, liberaram os preços dos cereais e abriram crédito a juros baixos para o agricultor. O dinheiro que sobrasse, bem, digamos, ora o dinheiro que sobrasse!
Houve protestos.
Diminuíram os salários (infelizmente aumentou o número de assaltos) porque precisamos combater a inflação e, como se sabe, quando os salários estão acima do índice de produtividade eles se tornam altamente inflacionários, de modo que.
Houve protestos.
Proibiram os protestos.
E no lugar dos protestos nasceu o ódio. Então surgiu a Casa de Vidro, para acabar com aquele ódio.
Publicado em 1979, o texto compartilha com outras obras da literatura brasileira escritas no período as marcas do contexto em que foi produzido, como a
referência à censura e à opressão para alegorizar a falta de liberdade de expressão característica da época.
valorização de situações do cotidiano para atenuar os sentimentos de revolta em relação ao governo instituído.
utilização de metáforas e ironias para expressar um olhar crítico em relação à situação social e política do país.
tendência realista para documentar com verossimilhança o drama da população brasileira durante o Regime Militar.
sobreposição das manifestações populares pelo discurso oficial para destacar o autoritarismo do momento histórico.
Official Explanation / Community Explanations
A alternativa correta é a que aponta a utilização de metáforas e ironias para expressar um olhar crítico em relação à situação social e política do país. O texto "A Casa de Vidro", de Ivan Ângelo, publicado em 1979, durante o Regime Militar brasileiro, emprega uma linguagem alegórica e irônica para criticar a repressão e a falta de liberdade. A repetição de "Houve protestos" seguida de medidas governamentais que ignoram as demandas populares, culminando na proibição dos protestos e no surgimento do ódio, é uma metáfora da escalada autoritária. A ironia está presente, por exemplo, na justificativa econômica para a redução de salários e no desfecho com a "Casa de Vidro", que supostamente acabaria com o ódio, mas na verdade representa um mecanismo de controle. Essa estratégia é característica da literatura de resistência da época, que usava recursos indiretos para driblar a censura e criticar o regime.
A alternativa que menciona referência à censura e à opressão para alegorizar a falta de liberdade de expressão está incorreta porque, embora o texto aborde indiretamente a censura (ao proibir os protestos), o foco principal não é alegorizar a falta de liberdade de expressão, mas sim criticar as contradições sociais e políticas de forma mais ampla, usando metáforas e ironias.
A alternativa que fala em valorização de situações do cotidiano para atenuar os sentimentos de revolta está errada, pois o texto não atenua a revolta; ao contrário, ele a denuncia e a expõe, mostrando como as medidas governamentais geram mais insatisfação.
A alternativa que aponta tendência realista para documentar com verossimilhança o drama da população está incorreta, pois o texto não é realista no sentido de documentar fatos de forma direta; ele é alegórico e metafórico, não buscando verossimilhança, mas sim crítica indireta.
A alternativa que menciona sobreposição das manifestações populares pelo discurso oficial para destacar o autoritarismo está errada, pois o texto não apresenta um discurso oficial sobrepondo-se às manifestações; ele mostra a repressão e a proibição, mas não há um discurso oficial sendo destacado. A crítica é feita pela própria estrutura narrativa irônica.