Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e5c03
Sem acessórios nem som
Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato.
Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta para uma concepção de atividade poética que põe em evidência o(a)
angustiante necessidade de produção, presente em “Escrever só para me livrar/ de escrever”.
imprevisível percurso da composição, presente em “no atalho aberto a talhe de foice/ no caminho de rato”.
agressivo trabalho de supressão, presente em “corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega e bruta”.
inevitável frustração diante do poema, presente em “Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo”.
conflituosa relação com a inspiração, presente em “sentindo falta dos acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão”.
Official Explanation / Community Explanations
A resposta correta destaca o agressivo trabalho de supressão como concepção da atividade poética. O poema descreve o ato de escrever como um processo de corte e eliminação: “corto os conectivos / corto as palavras rentes / com tesoura de jardim / cega e bruta / com facão de mato”. Essa imagem de violência e supressão evidencia que a criação poética, para o autor, envolve podar, remover o excesso, deixar apenas o essencial. A alternativa que aponta a angustiante necessidade de produção foca no início do poema (“Escrever só para me livrar de escrever”), mas não capta o núcleo da reflexão, que é o processo de corte. A que menciona o imprevisível percurso da composição se apoia nos versos finais (“atalho aberto a talhe de foice / no caminho de rato”), que sugerem um caminho tortuoso, mas não a supressão. A alternativa sobre a inevitável frustração diante do poema se baseia em “Mas tudo desafina”, que expressa descontentamento, mas não é o foco principal. Por fim, a que trata da conflituosa relação com a inspiração se refere à “falta dos acompanhamentos e figuras sem força de expressão”, que indica ausência de inspiração, mas não o trabalho de supressão. Portanto, a ênfase do poema está no ato de cortar, suprimir, o que corresponde à alternativa correta.