Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e5c03
TEXTO I
Lições de motim
DONA COTINHA — É claro! Só gosta de solidão quem nasceu pra ser solitário. Só o solitário gosta de solidão. Quem vive só e não gosta da solidão não é um solitário, é só um desacompanhado. (A reflexão escorrega lá pro fundo da alma.) Solidão é vocação, besta de quem pensa que é sina. Por isso, tem de ser valorizada. E não é qualquer um que pode ser solitário, não. Ah, mas não é mesmo! É preciso ter competência pra isso. (De súbito, pedagógica, volta-se para o homem.) É como poesia, sabe, moço? Tem de ser recitada em voz alta, que é pra gente sentir o gosto. (FAZ UMA PAUSA.) Você gosta de poesia? (O HOMEM TORNA A SE DEBATER. A VELHA INTERROMPE O DISCURSO E VOLTA A LHE DAR AS COSTAS, COMO SEMPRE, IMPASSÍVEL. O HOMEM, MAIS UMA VEZ, CANSADO, DESISTE.) Bem, como eu ia dizendo, pra viver bem com a solidão temos de ser proprietários dela e não inquilinos, me entende? Quem é inquilino da solidão não passa de um abandonado. É isso aí.
ZORZETTI, H. Lições de motim. Goiânia: Kelps, 2010 (adaptado).
TEXTO II
Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.
DURAS, M. O amante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Na imagem e no texto do romance de Marguerite Duras, os dois autorretratos apontam para o modo de representação da subjetividade moderna. Na pintura e na literatura modernas, o rosto humano deforma-se, destrói-se ou fragmenta-se em razão
da adesão à estética do grotesco, herdada do romantismo europeu, que trouxe novas possibilidades de representação.
das catástrofes que assolaram o século XX e da descoberta de uma realidade psíquica pela psicanálise.
da opção em demonstrarem oposição aos limites estéticos da revolução permanente trazida pela arte moderna.
do posicionamento do artista do século XX contra a negação do passado, que se torna prática dominante na sociedade burguesa.
da intenção de garantir uma forma de criar obras de arte independentes da matéria presente em sua história pessoal.
Official Explanation / Community Explanations
A resposta correta aponta que a deformação e fragmentação do rosto na arte moderna decorrem das catástrofes do século XX (como as guerras mundiais) e da descoberta da realidade psíquica pela psicanálise, que revelou a complexidade e as fraturas do sujeito. A alternativa que menciona a adesão ao grotesco romântico está incorreta, pois o grotesco moderno não é mera herança romântica, mas uma resposta a novas condições históricas e psicológicas. A opção que fala em oposição aos limites estéticos da revolução permanente da arte moderna é contraditória, pois a própria arte moderna é essa revolução. A alternativa sobre a negação do passado na sociedade burguesa não se sustenta, já que a arte moderna frequentemente dialoga com o passado de forma crítica. Por fim, a intenção de criar obras independentes da matéria pessoal é equivocada, pois a subjetividade e a experiência pessoal são centrais no modernismo.