Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e5c05
Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio. As mulheres, principalmente as mortas do álbum, eram maravilhosas. Os homens, mais maravilhosos ainda, ah, difícil encontrar família mais perfeita. A nossa família, dizia a bela voz de contralto da minha avó. Na nossa família, frisava, lançando em redor olhares complacentes, lamentando os que não faziam parte do nosso clã. [...]
Quando Margarida resolveu contar os podres todos que sabia naquela noite negra da rebelião, fiquei furiosa. [...] É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos. Mas Margarida seguia em frente: tio Maximiliano se casou com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não passava de um pilantra, a loirinha feiosa era riquíssima. Tia Consuelo? Ora, tia Consuelo chorava porque sentia falta de homem, ela queria homem e não Deus, ou o convento ou o sanatório. O dote era tão bom que o convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo. “E tem mais coisas ainda, minha queridinha”, anunciou Margarida fazendo um agrado no meu queixo. Reagi com violência: uma agregada, uma cria e, ainda por cima, mestiça. Como ousava desmoralizar meus heróis?
Representante da ficção contemporânea, a prosa de Lygia Fagundes Telles configura e desconstrói modelos sociais. No trecho, a percepção do núcleo familiar descortina um(a)
convivência frágil ligando pessoas financeiramente dependentes.
tensa hierarquia familiar equilibrada graças à presença da matriarca.
pacto de atitudes e valores mantidos à custa de ocultações e hipocrisias.
tradicional conflito de gerações protagonizado pela narradora e seus tios.
velada discriminação racial refletida na procura de casamentos com europeus.
Official Explanation / Community Explanations
A resposta correta é a que aponta o pacto de atitudes e valores mantidos à custa de ocultações e hipocrisias. No trecho, a narradora inicialmente idealiza a família como "harmoniosa, sólida, verdadeira", mas Margarida revela segredos que desconstroem essa imagem: casamentos por interesse, loucura disfarçada de vocação religiosa, e a reação violenta da narradora ao ouvir tais verdades. Isso evidencia que a família mantinha uma fachada de perfeição baseada em ocultações e hipocrisias.
A alternativa que menciona convivência frágil ligando pessoas financeiramente dependentes está incorreta porque, embora haja dependência financeira (como no casamento de Maximiliano), o foco principal não é a fragilidade dos laços, mas sim a manutenção de uma aparência idealizada.
A alternativa sobre tensa hierarquia familiar equilibrada pela matriarca está incorreta, pois a avó aparece como figura que reforça a idealização, mas não há evidência de que ela equilibre tensões; ao contrário, a revelação dos segredos desestabiliza a hierarquia.
A alternativa sobre tradicional conflito de gerações está incorreta, pois o conflito não é entre gerações (narradora e tios), mas sim entre a visão idealizada da narradora e a realidade exposta por Margarida, que é uma agregada, não da mesma geração.
A alternativa sobre velada discriminação racial refletida na procura de casamentos com europeus está incorreta, pois a discriminação racial aparece apenas na fala da narradora ao chamar Margarida de "mestiça", mas não é o eixo central da desconstrução da família; o foco está na hipocrisia e ocultação de podres.