Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e5c07
E como manejava bem os cordéis de seus títeres, ou ele mesmo, títere voluntário e consciente, como entregava o braço, as pernas, a cabeça, o tronco, como se desfazia de suas articulações e de seus reflexos quando achava nisso conveniência. Também ele soubera apoderar-se dessa arte, mais artifício, toda feita de sutilezas e grosserias, de expectativa e oportunidade, de insolência e submissão, de silêncios e rompantes, de anulação e prepotência. Conhecia a palavra exata para o momento preciso, a frase picante ou obscena no ambiente adequado, o tom humilde diante do superior útil, o grosseiro diante do inferior, o arrogante quando o poderoso em nada o podia prejudicar. Sabia desfazer situações equívocas, e armar intrigas das quais se saía sempre bem, e sabia, por experiência própria, que a fortuna se ganha com uma frase, num dado momento, que este momento único, irrecuperável, irreversível, exige um estado de alerta para a sua apropriação.
No conto, o autor retrata criticamente a habilidade do personagem no manejo de discursos diferentes segundo a posição do interlocutor na sociedade. A crítica à conduta do personagem está centrada
na imagem do títere ou fantoche em que o personagem acaba por se transformar, acreditando dominar os jogos de poder na linguagem.
na alusão à falta de articulações e reflexos do personagem, dando a entender que ele não possui o manejo dos jogos discursivos em todas as situações.
no comentário, feito em tom de censura pelo autor, sobre as frases obscenas que o personagem emite em determinados ambientes sociais.
nas expressões que mostram tons opostos nos discursos empregados aleatoriamente pelo personagem em conversas com interlocutores variados.
no falso elogio à originalidade atribuída a esse personagem, responsável por seu sucesso no aprendizado das regras de linguagem da sociedade.
Official Explanation / Community Explanations
A crítica central do conto está na imagem do títere ou fantoche, pois o personagem, embora acredite dominar os jogos de poder na linguagem, acaba se tornando um mero manipulador de discursos, perdendo sua autenticidade e se transformando em um ser mecânico, sem vontade própria. O texto destaca que ele "manejava bem os cordéis de seus títeres" e que ele mesmo era um "títere voluntário e consciente", indicando que sua habilidade de adaptar o discurso conforme o interlocutor o reduz a um fantoche social. As demais alternativas estão incorretas: a que menciona falta de articulações e reflexos contradiz o texto, que afirma que ele sabia se desfazer deles quando conveniente; a que fala de censura às frases obscenas é superficial, pois a crítica não se limita a isso; a que alega uso aleatório de tons opostos ignora que o personagem escolhia estrategicamente cada tom; e a que menciona falso elogio à originalidade não se sustenta, pois o texto não elogia, mas critica a perda de identidade.