Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a
Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!
Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?
Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida, escrito no cenário brasileiro pós-abolição, a narradora exprime um olhar crítico sobre a
desvalorização da arte produzida por mulheres.
mudança das condições de moradia do povo negro.
ruptura do projeto político de emancipação feminina.
exploração da força de trabalho da população negra.
disputa de poder entre brancos e negros no século XIX.
Official Explanation / Community Explanations
Análise do Fragmento de "A Falência"
A resposta correta é a alternativa D) exploração da força de trabalho da população negra.
1. O Contraste Social como Ferramenta Crítica
O fragmento é construído sobre um contraste chocante entre duas realidades: a da protagonista e a de Sancha.
- A Protagonista: Vive em um mundo de privilégios absolutos. É "criada entre beijos", tem "vontades satisfeitas", "leito fofo" e "mesa delicada". Suas mágoas são existenciais e abstratas ("um desejo sem nome", "saudade do céu"). * Sancha: É a personificação da miséria e da opressão. Ela é "negra, feia, suja", sofre violência física ("levada a pontapés"), vive em condições sub-humanas ("dormindo sem lençóis em uma esteira") e, crucialmente, está submetida a um regime de trabalho análogo à escravidão.
A revelação da protagonista acontece quando ela compara sua vida com a de Sancha, o que a leva a questionar a profunda injustiça do mundo.
2. O Foco na Exploração do Trabalho
A descrição da vida de Sancha culmina no ponto central da crítica social do texto:
- "[...] curvada para um trabalho sem descanso nem paga!"
Esta frase é a chave para a interpretação. No contexto "pós-abolição" mencionado no enunciado, a existência de uma mulher negra submetida a um "trabalho sem paga" é uma denúncia direta de que a abolição da escravatura não significou o fim da exploração brutal da mão de obra da população negra. A narradora, através dos olhos da protagonista, expõe a continuidade de uma estrutura social opressiva e injusta, onde a liberdade legal não se traduziu em dignidade ou direitos trabalhistas.
3. Avaliação das Outras Alternativas
- A) desvalorização da arte produzida por mulheres: Incorreto. A menção à "aspiração da artista" na protagonista serve apenas para caracterizar seu sofrimento privilegiado, não sendo o foco da crítica social. * B) mudança das condições de moradia do povo negro: Incorreto. O texto descreve uma condição de moradia terrível, mas não fala de uma "mudança". Pelo contrário, sugere a permanência de condições sub-humanas. * C) ruptura do projeto político de emancipação feminina: Incorreto. A crítica não é sobre gênero, mas sobre a intersecção de raça e classe. A opressão de Sancha é mostrada como um resultado de sua condição de mulher negra e pobre no pós-abolição. * E) disputa de poder entre brancos e negros no século XIX: Incorreto. O texto não mostra uma "disputa", mas sim uma relação de dominação absoluta e opressão, onde Sancha não tem poder algum.
4. Conclusão
O olhar crítico expresso pela narradora foca na desigualdade social gritante do Brasil pós-abolição, usando a figura de Sancha para denunciar como a população negra continuou a ser submetida a uma violenta exploração de sua força de trabalho, mesmo após o fim legal da escravidão.