Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
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Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a

Question Statement
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
#literatura brasileira
#realismo/naturalismo
#questão racial
#pós-abolição
#linguagens
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Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.

E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!

Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

ALMEIDA, J. L. A falência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 28 dez. 2023.

Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida, escrito no cenário brasileiro pós-abolição, a narradora exprime um olhar crítico sobre a

A

desvalorização da arte produzida por mulheres.

B

mudança das condições de moradia do povo negro.

C

ruptura do projeto político de emancipação feminina.

D

exploração da força de trabalho da população negra.

Correct
E

disputa de poder entre brancos e negros no século XIX.

Official Explanation / Community Explanations

Análise do Fragmento de "A Falência"

A resposta correta é a alternativa D) exploração da força de trabalho da população negra.


1. O Contraste Social como Ferramenta Crítica

O fragmento é construído sobre um contraste chocante entre duas realidades: a da protagonista e a de Sancha.

  • A Protagonista: Vive em um mundo de privilégios absolutos. É "criada entre beijos", tem "vontades satisfeitas", "leito fofo" e "mesa delicada". Suas mágoas são existenciais e abstratas ("um desejo sem nome", "saudade do céu"). * Sancha: É a personificação da miséria e da opressão. Ela é "negra, feia, suja", sofre violência física ("levada a pontapés"), vive em condições sub-humanas ("dormindo sem lençóis em uma esteira") e, crucialmente, está submetida a um regime de trabalho análogo à escravidão.

A revelação da protagonista acontece quando ela compara sua vida com a de Sancha, o que a leva a questionar a profunda injustiça do mundo.

2. O Foco na Exploração do Trabalho

A descrição da vida de Sancha culmina no ponto central da crítica social do texto:

  • "[...] curvada para um trabalho sem descanso nem paga!"

Esta frase é a chave para a interpretação. No contexto "pós-abolição" mencionado no enunciado, a existência de uma mulher negra submetida a um "trabalho sem paga" é uma denúncia direta de que a abolição da escravatura não significou o fim da exploração brutal da mão de obra da população negra. A narradora, através dos olhos da protagonista, expõe a continuidade de uma estrutura social opressiva e injusta, onde a liberdade legal não se traduziu em dignidade ou direitos trabalhistas.

3. Avaliação das Outras Alternativas

  • A) desvalorização da arte produzida por mulheres: Incorreto. A menção à "aspiração da artista" na protagonista serve apenas para caracterizar seu sofrimento privilegiado, não sendo o foco da crítica social. * B) mudança das condições de moradia do povo negro: Incorreto. O texto descreve uma condição de moradia terrível, mas não fala de uma "mudança". Pelo contrário, sugere a permanência de condições sub-humanas. * C) ruptura do projeto político de emancipação feminina: Incorreto. A crítica não é sobre gênero, mas sobre a intersecção de raça e classe. A opressão de Sancha é mostrada como um resultado de sua condição de mulher negra e pobre no pós-abolição. * E) disputa de poder entre brancos e negros no século XIX: Incorreto. O texto não mostra uma "disputa", mas sim uma relação de dominação absoluta e opressão, onde Sancha não tem poder algum.

4. Conclusão

O olhar crítico expresso pela narradora foca na desigualdade social gritante do Brasil pós-abolição, usando a figura de Sancha para denunciar como a população negra continuou a ser submetida a uma violenta exploração de sua força de trabalho, mesmo após o fim legal da escravidão.