Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a
Sempre passo nervoso quando leio minha crônica neste jornal e percebo que escapuliu a palavra “coisa” em alguma frase. Acontece que “coisa” está entre as coisas mais deliciosas do mundo.
O primeiro banho da minha filha foi embalado pela minha voz dizendo, ao fundo, “cuidado, ela ainda é uma coisinha tão pequena”. “Viu só que amor? Nunca vi coisa assim”. O amor que não dá conta de explicação é “a coisa” em seu esplendor e excelência. “Alguma coisa acontece no meu coração” é a frase mais bonita que alguém já disse sobre São Paulo. E quando Caetano, citado aqui pela terceira vez pra defender a dimensão poética da coisa, diz “coisa linda”, nós sabemos que nenhuma palavra definiria de forma mais profunda e literária o quão bela e amada uma coisa pode ser.
“Coisar” é verbo de quem está com pressa ou tem lapsos de memória. É pra quando “mexe qualquer coisa dentro doida”. E que coisa magnífica poder se expressar tal qual Caetano Veloso. Agora chega, porque “esse papo já tá qualquer coisa” e eu já tô “pra lá de Marrakech”.
O recurso utilizado na progressão textual para garantir a unidade temática dessa crônica é a
intertextualidade, marcada pela citação de versos de letras de canções.
metalinguagem, marcada pela referência à escrita de crônicas pela autora.
reiteração, marcada pela repetição de uma determinada palavra e de seus cognatos.
conexão, marcada pela presença dos conectores lógicos “quando” e “porque” entre orações.
pronominalização, marcada pela retomada de “minha filha” e “um namorado ruim” pelos pronomes “ela” e “lo”.
Official Explanation / Community Explanations
Análise da Crônica de Tati Bernardi
A resposta correta é a alternativa C) reiteração, marcada pela repetição de uma determinada palavra e de seus cognatos.
1. A Construção da Unidade Temática
A unidade temática de um texto é o que o mantém coeso em torno de um assunto principal. Nesta crônica, o tema é inequivocamente a palavra "coisa". A autora defende o uso e a expressividade dessa palavra, que é frequentemente vista como pobre ou vaga.
Para construir seu argumento e manter o foco nesse tema do início ao fim, o recurso mais proeminente e fundamental que ela utiliza é a reiteração, ou seja, a repetição intencional.
- A palavra "coisa" e seus cognatos (como "coisinha" e o verbo "coisar") são repetidos exaustivamente em todos os parágrafos. * Essa repetição não é uma falha, mas uma estratégia deliberada. Cada nova aparição da palavra serve para explorá-la em um contexto diferente: no afeto familiar, no amor, na música, na pressa. * É essa repetição constante que amarra todas as partes do texto, garantindo que, apesar dos exemplos variados, o leitor nunca perca de vista o tema central.
2. Avaliação das Outras Alternativas
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A) intertextualidade, marcada pela citação de versos de letras de canções: Incorreto. A intertextualidade (citações de Caetano Veloso) é um recurso importante na crônica, mas ele está a serviço da reiteração. As canções são escolhidas justamente porque elas contêm a palavra "coisa" e ajudam a legitimar seu uso. Portanto, a intertextualidade é uma ferramenta secundária para apoiar o tema, não o recurso principal que garante a unidade.
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B) metalinguagem, marcada pela referência à escrita de crônicas pela autora: Incorreto. A metalinguagem aparece apenas na primeira frase ("...quando leio minha crônica neste jornal..."). Ela serve como introdução, mas não é o recurso que sustenta a unidade do texto inteiro.
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D) conexão, marcada pela presença dos conectores lógicos “quando” e “porque” entre orações: Incorreto. Conectores são elementos de coesão presentes em praticamente todos os textos bem escritos. Eles não são uma estratégia estilística específica desta crônica para garantir sua unidade temática.
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E) pronominalização, marcada pela retomada de “minha filha” [...] pelo pronome “ela”: Incorreto. A pronominalização é um mecanismo de coesão para evitar a repetição de um termo já mencionado. Neste texto, o objetivo da autora é justamente o oposto: ela quer repetir a palavra-chave para reforçar seu ponto.
3. Conclusão
A espinha dorsal que sustenta toda a crônica e unifica seus diversos exemplos e argumentos é a reiteração da palavra "coisa". É através da sua repetição e ressignificação contínua que a autora desenvolve seu tema e garante a unidade do texto.