Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
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Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a

Question Statement
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
#literatura brasileira
#machado de assis
#foco narrativo
#intertextualidade
#linguagens
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Data venia

Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba faltando-se a si mesmo. Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador.

Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do século XIX, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio que foi Machado de Assis?

A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade em que habita a Literatura, arrisquei-me.

O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu discurso e sua verdade.

PROENÇA FILHO, D. Capitu: memórias póstumas. Rio de Janeiro: Atrium, 1998.

Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse texto

A

relaciona aspectos centrais da obra original e, então, reafirma o ponto de vista adotado.

B

explica os pontos de vista de críticos da literatura e, por fim, os redimensiona na discussão.

C

introduz elementos relevantes da história e, na sequência, apresenta motivos para refutá-los.

D

justifica as razões pelas quais adotou certa abordagem e, em seguida, reconsidera tal escolha.

E

contextualiza o enredo de forma subjetiva e, na conclusão, explicita o foco narrativo a ser assumido.

Correct

Official Explanation / Community Explanations

Análise do Texto de Domício Proença Filho

A resposta correta é a alternativa E) contextualiza o enredo de forma subjetiva e, na conclusão, explicita o foco narrativo a ser assumido.


1. A Estrutura Argumentativa do Texto

O texto é a apresentação de um projeto literário: a reescrita de "Dom Casmurro" sob a perspectiva de Capitu. Para justificar essa "apropriação", o autor constrói seu argumento em duas etapas claras e progressivas.

Etapa 1: Contextualização Subjetiva (Parágrafos 1 e 2)

O autor não começa com uma análise fria e objetiva da obra de Machado de Assis. Pelo contrário, ele parte de sua experiência pessoal e subjetiva como leitor:

  • Ele descreve seus sentimentos ao ler a obra pela primeira vez: foi seduzido por Capitu, mas sentiu "indignação" por Bentinho. * Ele oferece sua interpretação pessoal do narrador, chamando-o de "algoz, em pele de cordeiro vitimado" e seu texto de "acusação e vilipêndio". * Ele critica a recepção da obra, que, em sua visão, nega a voz de Capitu.

Toda essa introdução serve para contextualizar o enredo de "Dom Casmurro" não como um fato, mas como um problema a ser resolvido, tudo a partir de sua perspectiva particular.

Etapa 2: Explicitação do Foco Narrativo (Parágrafos 3 e 4)

Após estabelecer sua visão crítica e o "problema" (a falta de voz de Capitu), o autor revela sua solução. Esta é a conclusão de seu raciocínio:

  • Ele tem a "iluminação": "por que não dar voz plena àquela mulher?". * Ele descreve o resultado de sua empreitada: "este livro em que [...] a dona dos olhos de ressaca assume [...] seu discurso e sua verdade."

Nesta parte final, ele explicita (torna claro, revela) qual será o foco narrativo de sua obra: Capitu será a narradora, contando sua própria história.

2. Avaliação das Outras Alternativas

  • A) relaciona aspectos centrais da obra original e, então, reafirma o ponto de vista adotado: Incorreto. Ele faz mais do que "reafirmar" um ponto de vista; ele o utiliza como base para criar uma nova obra com um novo foco narrativo. * B) explica os pontos de vista de críticos da literatura e, por fim, os redimensiona na discussão: Incorreto. A menção aos críticos é um ponto secundário para reforçar sua tese, não o foco principal. * C) introduz elementos relevantes da história e, na sequência, apresenta motivos para refutá-los: Incorreto. Ele não refuta os elementos da história, mas sim a interpretação unilateral de Bentinho sobre esses elementos. * D) justifica as razões pelas quais adotou certa abordagem e, em seguida, reconsidera tal escolha: Incorreto. Ele justifica sua escolha e a confirma com a publicação do livro; não há reconsideração.

3. Conclusão

A estrutura do texto segue um caminho lógico e persuasivo: primeiro, o autor nos convence de sua leitura subjetiva do romance original, criando a necessidade de uma nova versão. Em seguida, ele apresenta explicitamente essa nova versão, definindo seu foco narrativo como a solução para o problema que ele mesmo apontou.