Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a
Cap. XLVIII / Terpsícore
Ao contrário do que ficou dito atrás, Flora não se aborreceu na ilha. Conjeturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficam, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a vizinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de gás, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis aí aspectos novos que a encantaram durante aquelas horas rápidas.
Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e própria. Toda ela compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto para se meter consigo. Também invejava a princesa imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recôndito do paço, fartando-se de contemplação ou de música. Era assim que Flora definia o ofício de governar. Tais ideias passavam e tornavam. De uma vez alguém lhe disse, como para lhe dar força: “Toda alma livre é imperatriz!”.
Convidada para o último baile do Império, na Ilha Fiscal, localizada no Rio de Janeiro, Flora devaneia sobre aspectos daquele contexto, no qual o narrador ironiza a
promessa de esperança com o futuro regime.
alienação da elite em relação ao fim da monarquia.
perspectiva da contemplação distanciada da capital.
animosidade entre população e membros da nobreza.
fantasia de amor e de casamento da mulher burguesa
Official Explanation / Community Explanations
Análise do Fragmento de "Esaú e Jacó"
A resposta correta é a alternativa B) alienação da elite em relação ao fim da monarquia.
1. O Contexto Histórico e a Ironia Machadiana
O enunciado informa um dado crucial que não está no fragmento, mas é essencial para a interpretação: a cena se passa no "último baile do Império". Isso significa que, enquanto os personagens se divertem, a monarquia brasileira está a poucas horas de seu fim. A ironia de Machado de Assis reside precisamente no contraste entre a gravidade do momento histórico e a futilidade das preocupações da elite ali reunida.
2. A Análise do Devaneio de Flora
A personagem Flora, em vez de perceber a tensão política ou o fim de uma era, está completamente imersa em suas próprias sensações e fantasias:
- Encantamento com o superficial: Ela se encanta com a "novidade da festa", os "navios", os "lampiões de gás". Sua percepção é puramente estética e sensorial, alheia a qualquer significado político. * Alegria e esquecimento: O narrador descreve que ela "esquecia-se do resto para se meter consigo". O "resto" aqui, no contexto histórico, é nada menos que a iminente queda do Império. * Definição ingênua de poder: O ápice da alienação se dá em seu devaneio sobre a princesa. Ela não inveja o poder político, a responsabilidade de governar uma nação. Ela inveja a fantasia de poder usar o status imperial para fins puramente pessoais: "ficar só, no mais recôndito do paço, fartando-se de contemplação ou de música". Para Flora, governar é o luxo de se isolar do mundo, e não a obrigação de interagir com ele.
O narrador, ao descrever essa alegria e esses pensamentos ingênuos, expõe com fina ironia a completa alienação daquela elite. Eles estão, literalmente, dançando à beira do abismo, preocupados com seus próprios umbigos e fantasias, cegos para a realidade histórica que os cerca.
3. Avaliação das Outras Alternativas
- A) promessa de esperança com o futuro regime: Incorreto. O texto não menciona o futuro regime (a República) nem qualquer sentimento de esperança a ele associado. * C) perspectiva da contemplação distanciada da capital: Incorreto. A contemplação de Flora não é o alvo da ironia, mas sim o conteúdo dessa contemplação, que revela seu alheamento político. * D) animosidade entre população e membros da nobreza: Incorreto. O texto descreve um ambiente de festa e "felicidade" entre os membros da elite, sem qualquer menção a conflitos com a população. * E) fantasia de amor e de casamento da mulher burguesa: Incorreto. O devaneio específico de Flora descrito no fragmento não é sobre amor ou casamento, mas sobre uma visão idealizada e apolítica do poder e da liberdade pessoal.
4. Conclusão
A ironia do narrador machadiano se manifesta ao retratar a elite imperial em seus últimos momentos, não como personagens trágicos cientes de seu destino, mas como figuras alienadas, absortas em prazeres e fantasias fúteis, completamente alheias ao fim iminente de seu próprio mundo.