Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
medium

Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a

Question Statement
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
#variação linguística
#preconceito linguístico
#norma culta
#cultura popular
#linguagens
Medium

Falar errado é uma arte, Arnesto!

No dia 6 de agosto de 1910, Emma Riccini Rubinato pariu um garoto sapeca em Valinhos e deu a ele o nome de João Rubinato. Na escola, João não passou do terceiro ano. Não era a área dele, tinha de escolher outra. Fez o que apareceu. Foi ser garçom, metalúrgico, até virar radialista, comediante, ator de cinema e TV, cantor e compositor. De samba.

Como tinha sobrenome italiano, João resolveu mudar para emplacar seu samba. E como ia mudar o sobrenome, mudou o nome. Virou Adoniran Barbosa. O cara falava errado, voz rouca, pinta de malandro da roça. Virou ícone da música brasileira, o mais paulista de todos, falando errado e irritando Vinicius de Moraes, que ficou de bico fechado depois de ouvir a música que Adoniran fez para a letra Bom dia, tristeza, de autoria do Poetinha. Coisa de arrepiar.

Para toda essa gente que implicava, Adoniran tinha uma resposta neoerudita: "Gosto de samba e não foi fácil, pra mim, ser aceito como compositor, porque ninguém queria nada com as minhas letras que falavam 'nóis vai', 'nóis fumo', 'nóis fizemo', 'nóis peguemo'. Acontece que é preciso saber falar errado. Falar errado é uma arte, senão vira deboche".

Ele sabia o que fazia. Por isso dizia que falar errado era uma arte. A sua arte. Escolhida a dedo porque casava com seu tipo. O Samba do Arnesto é um monumento à fala errada, assim como Tiro ao Álvaro. O erudito podia resmungar, mas o povo se identificava.

PEREIRA, E. Disponível em: www.tribunapr.com.br. Acesso em: 8 jul. 2024 (adaptado).

O "falar errado" a que o texto se refere constitui um preconceito em relação ao uso que Adoniran Barbosa fazia da língua em suas composições, pois esse uso

A

marcava a linguagem dos comediantes no mesmo período.

B

prejudicava a compreensão das canções pelo público.

C

denunciava a ausência de estilo nas letras de canção.

D

restringia a criação poética nas letras do compositor.

E

transgredia a norma-padrão vigente à época.

Correct

Official Explanation / Community Explanations

Análise do Texto sobre Adoniran Barbosa

A resposta correta é a alternativa E) transgredia a norma-padrão vigente à época.


1. A Natureza do "Falar Errado"

O termo "falar errado", no contexto do texto, é usado de forma irônica e crítica. Ele representa a visão da elite cultural e dos defensores da gramática normativa ("o erudito podia resmungar") sobre a linguagem utilizada por Adoniran Barbosa. O "erro" de Adoniran não era um engano ou uma falha de comunicação, mas uma escolha artística deliberada.

2. A Transgressão da Norma-Padrão

A norma-padrão é a variedade linguística de prestígio, ensinada nas escolas e codificada nas gramáticas. Ela dita que o correto é "nós vamos", "nós fomos", "nós fizemos". Ao usar conscientemente formas como "nóis vai", "nóis fumo", "nóis fizemo", Adoniran estava quebrando as regras dessa norma. Ele estava transgredindo a norma-padrão.

O preconceito surge quando essa transgressão é julgada não como uma escolha estilística ou a representação de outra variedade linguística (o falar popular paulistano), mas como um "erro" absoluto, uma prova de ignorância. Adoniran subverte essa lógica ao afirmar que "Falar errado é uma arte", ou seja, ele transforma a transgressão em seu próprio padrão estético.

3. Avaliação das Outras Alternativas

  • A) marcava a linguagem dos comediantes no mesmo período: Incorreto. O texto apresenta o estilo de Adoniran como algo único e pessoal ("A sua arte"), não como uma característica geral dos comediantes da época. * B) prejudicava a compreensão das canções pelo público: Incorreto. O texto afirma o exato oposto: "o povo se identificava", o que indica que a compreensão era perfeita para o seu público-alvo. * C) denunciava a ausência de estilo nas letras de canção: Incorreto. O texto defende que esse uso da língua era o seu estilo, uma "arte" e um "monumento". * D) restringia a criação poética nas letras do compositor: Incorreto. O "falar errado" não restringia, mas sim possibilitava sua criação poética, sendo a matéria-prima de sua originalidade.

4. Conclusão

O preconceito em torno do "falar errado" de Adoniran Barbosa reside no fato de que sua linguagem era julgada unicamente pela régua da norma-padrão. O que para os "eruditos" era um erro, para o artista e seu público era uma representação legítima e artística de sua identidade cultural, uma transgressão consciente da norma vigente que se tornou sua marca registrada.