Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a
Feijoada à minha moda
Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.
Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.
Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão
[...]
De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)
[...]
Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilinguindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso
Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.
[...]
Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... — jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin,
O seu Vinicius de Moraes.
Apesar de haver marcas formais de carta e receita, a característica que define esse texto como poema é o(a)
nomeação de um interlocutor.
manifestação de intimidade.
descrição de procedimentos.
utilização de uma linguagem expressiva.
apresentação de ingredientes culinários.
Official Explanation / Community Explanations
Análise do Poema "Feijoada à minha moda"
A resposta correta é a alternativa D) utilização de uma linguagem expressiva.
1. A Fusão de Gêneros
O texto de Vinicius de Moraes é um exemplo brilhante de hibridismo de gêneros. Ele se apropria da estrutura de uma carta (tem um destinatário, uma saudação e uma despedida) e do conteúdo de uma receita (lista ingredientes e descreve procedimentos). No entanto, o que eleva o texto para além desses formatos funcionais e o define como um poema é a maneira como a linguagem é trabalhada.
2. O que Torna o Texto um Poema? A Linguagem Expressiva
A característica que define a poesia não é o tema, mas o tratamento da linguagem. Em vez de usar uma linguagem objetiva e direta, como se esperaria de uma receita, o poeta utiliza uma linguagem expressiva, rica em subjetividade, figuras de linguagem e criatividade.
Podemos ver isso em vários momentos:
- Personificação: Os elementos da receita ganham vida e sentimentos. * "O feijão deve [...] / Nos esperar, feliz, de molho." * "Deve também se estar fritando / O torresminho delicioso / Desmilinguindo-se de gozo" * "...frigir a couve / Picada, em fogo alegre e presto." * Subjetividade: O poeta insere seus próprios sentimentos e opiniões na descrição, algo incomum em uma receita técnica. * "Nós, bocejando o nosso tédio / Nos chegaremos ao fogão" * "(Melhor gordura nunca houve!)" * Linguagem Conotativa: As palavras são usadas para além de seu sentido literal, criando imagens poéticas ("receita (poética)").
É essa camada de expressividade que transforma um manual de instruções culinárias em uma obra de arte.
3. Avaliação das Outras Alternativas
- A) nomeação de um interlocutor: Esta é uma característica da carta, não do poema. * B) manifestação de intimidade: A intimidade está presente, mas é uma característica da carta e não o elemento que, por si só, define o texto como poema. * C) descrição de procedimentos: Esta é a característica principal da receita. * E) apresentação de ingredientes culinários: Assim como a anterior, esta é uma característica da receita.
4. Conclusão
Apesar de se disfarçar de carta e receita, o texto é fundamentalmente um poema porque sua essência não está no que ele diz (as instruções), mas em como ele diz. A utilização de uma linguagem expressiva e poética é o que o distingue e o define como tal.