Ciências Humanas e suas Tecnologias Question #019e354a
TEXTO I
Aristóteles entendia que a felicidade era diretamente ligada ao respeito pela própria natureza e, de certa maneira, a uma vida que tivesse na natureza de si mesma uma referência inabalável. Isso lhe permitiu formular o conceito de excelência. O que seria excelência? Seria, justamente, ao longo da vida, tirar de si mesmo, em forma de performance, de conduta, de comportamento, de disposição, o que a natureza permitiria de melhor.
COEN, M.; BARROS FILHO, C. A monja e o professor: reflexões sobre ética, preceitos e valores. Rio de Janeiro: Best Seller, 2018.
TEXTO II
A noção de eudaimonia é central para a ética aristotélica. A eudaimonia é uma atividade e não um estado psicológico, pois é definida na Ética a Nicômaco como uma atividade da alma com base na virtude moral. A virtude moral é definida em termos de uma disposição diretamente ligada à deliberação, o que o leva a estudar a virtude intelectual que opera em seu interior, isto é, a prudência. A estrutura conceitual da ética aristotélica responde a uma tentativa de elucidar conceitualmente em que consiste isto, agir bem, ou, na linguagem aristotélica, o que significa ser feliz.
ZINGANO, M. Eudaimonia, razão e contemplação na ética aristotélica. Analytica, n. 1, 2017 (adaptado).
Os textos indicam que a prática de ações virtuosas, sempre efetivada na pólis, ocorre por meio do(a)
teoria das formas essenciais.
identificação dos princípios racionais.
desenvolvimento das técnicas retóricas.
aperfeiçoamento das condutas humanas.
conhecimento das epistemes verdadeiras.
Official Explanation / Community Explanations
Análise dos Textos sobre a Ética Aristotélica
A resposta correta é a alternativa D) aperfeiçoamento das condutas humanas.
1. O Conceito de Felicidade Ativa (Eudaimonia)
Ambos os textos convergem para a ideia central de que, para Aristóteles, a felicidade (eudaimonia) não é um estado passivo ou um sentimento momentâneo, mas sim uma atividade contínua.
- O Texto II é explícito ao afirmar que a eudaimonia é "uma atividade da alma com base na virtude moral". * O Texto I corrobora isso ao definir a "excelência" (virtude) como a capacidade de extrair de si mesmo o melhor em forma de "performance, de conduta, de comportamento".
Isso significa que a felicidade não é algo que se tem, mas algo que se faz.
2. O Processo de Aperfeiçoamento Contínuo
Se a felicidade é uma atividade virtuosa, a questão passa a ser: como se torna virtuoso? Os textos indicam que isso não é um dom inato, mas um processo de desenvolvimento ao longo da vida.
- O Texto I descreve a excelência como um esforço "ao longo da vida", um processo contínuo de tirar de si o que há de melhor. * O Texto II define a virtude como uma "disposição", o que em Aristóteles significa um hábito, uma segunda natureza que é adquirida através da prática repetida e da "deliberação" (escolha racional e prudente).
Juntando as duas ideias, a prática de ações virtuosas ocorre por meio de um esforço constante de melhoria, de educar os próprios hábitos e de fazer escolhas corretas. Esse processo é, em sua essência, o aperfeiçoamento das condutas humanas. A pessoa se torna justa praticando a justiça, torna-se corajosa praticando a coragem, e assim por diante.
3. Avaliação das Outras Alternativas
- A) teoria das formas essenciais: Esta é uma teoria de Platão, não de Aristóteles. A ética aristotélica é prática e imanente (ligada a este mundo), não baseada em formas ideais. * B) identificação dos princípios racionais: Embora a razão e a deliberação sejam cruciais (como aponta o Texto II com a "prudência"), apenas identificar os princípios não é suficiente. Para Aristóteles, é preciso praticá-los até que se tornem um hábito. * C) desenvolvimento das técnicas retóricas: A retórica é a arte da persuasão, um campo de estudo diferente da ética, que trata do "agir bem". * E) conhecimento das epistemes verdadeiras: "Episteme" para Aristóteles refere-se ao conhecimento científico e teórico, que é distinto da "phronesis" (prudência ou sabedoria prática) necessária para a ação moral.
4. Conclusão
Os textos indicam que, na ética aristotélica, a virtude não é um conhecimento teórico, mas uma prática constante. As ações virtuosas se efetivam por meio de um processo contínuo de prática, hábito e deliberação, que pode ser melhor definido como o aperfeiçoamento das condutas humanas.