Ciências Humanas e suas Tecnologias Question #019e354a
TEXTO I
O empirismo moderno foi, em grande parte, condicionado por dois dogmas. Um deles é a crença em certa divisão fundamental entre verdades analíticas, ou fundadas em significados independentemente de questões de fato, e verdades sintéticas, ou fundadas em fatos. O outro dogma é o reducionismo: a crença de que todo enunciado significativo é equivalente a algum construto lógico sobre termos que se referem à experiência imediata.
QUINE, W. V. O. Dois dogmas do empirismo. In: RYLE, G. et al. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
TEXTO II
Teses: 1. Somente os enunciados que possuem conteúdo factual são teoricamente significativos; enunciados que não podem, em princípio, estar fundamentados pela experiência são carentes de significado. 2. As ciências empíricas usam somente o conteúdo empírico da realidade. 3. A filosofia usa um conceito não empírico da realidade.
CARNAP, R. Pseudoproblemas na filosofia. In: SCHLICK, M.; CARNAP, R.; POPPER, K. Coletânea de textos. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
Ao comparar os textos, conclui-se que eles apresentam posicionamentos filosóficos divergentes com relação ao
estatuto epistemológico da linguagem.
alicerce estruturante da moralidade.
conteúdo essencial da metafísica.
princípio constitutivo da ontologia.
domínio reflexivo da estética.
Official Explanation / Community Explanations
Análise Comparativa dos Textos de Quine e Carnap
A resposta correta é a alternativa A) estatuto epistemológico da linguagem.
1. O Tema Central: A Relação entre Linguagem, Conhecimento e Realidade
Ambos os textos pertencem a uma das discussões mais importantes da filosofia do século XX, centrada na seguinte questão: como a linguagem se relaciona com o mundo e como podemos, através dela, obter conhecimento? Este é, por definição, um debate sobre o estatuto epistemológico da linguagem (o papel da linguagem na teoria do conhecimento). Os dois textos apresentam visões opostas sobre como resolver essa questão.
2. A Posição de Carnap (Texto II): Afirmação de um Critério Rígido
Rudolf Carnap, como um dos principais expoentes do Círculo de Viena e do positivismo lógico, defende uma posição empirista radical. Sua tese é a de que a linguagem só tem significado e só pode produzir conhecimento se estiver diretamente ligada à experiência.
- O Critério de Significado: Apenas enunciados com "conteúdo factual" e que podem ser "fundamentados pela experiência" são significativos. * A Divisão da Linguagem: Isso cria uma divisão nítida: 1. Linguagem com significado: A das ciências empíricas. 2. Linguagem sem significado ("pseudoproblemas"): A da filosofia tradicional e da metafísica, que usa conceitos não empíricos.
Para Carnap, o estatuto da linguagem é claro: ou ela se refere a fatos do mundo (e é útil para o conhecimento), ou não se refere (e é vazia de sentido).
3. A Posição de Quine (Texto I): A Crítica ao Critério Rígido
Willard Van Orman Quine, em seu famoso artigo "Dois Dogmas do Empirismo", ataca diretamente as bases que sustentam a posição de Carnap. Ele argumenta que essa divisão nítida da linguagem é um "dogma", uma crença sem a devida justificação.
- Crítica ao Dogma 1 (Divisão Analítico/Sintético): Quine questiona a "divisão fundamental" entre verdades de significado (analíticas) e verdades de fato (sintéticas). Sem essa divisão clara, o critério de Carnap (que depende de isolar o "conteúdo factual") começa a ruir. * Crítica ao Dogma 2 (Reducionismo): Quine ataca a ideia de que cada enunciado pode ser individualmente traduzido em experiências. Ele defende uma visão holística, onde a linguagem como um todo enfrenta o tribunal da experiência.
A posição de Quine é que o estatuto epistemológico da linguagem é muito mais complexo e fluido. Não há uma fronteira nítida entre o que é "significativo" e o que não é, ou entre o que é "ciência" e o que é "metafísica".
4. A Divergência Filosófica
A divergência é fundamental:
- Carnap afirma um estatuto rígido para a linguagem, com um critério de demarcação claro para o conhecimento. * Quine nega a validade desse estatuto, argumentando que os próprios fundamentos dessa demarcação são dogmas injustificados.
Eles divergem, portanto, sobre o estatuto epistemológico da linguagem: sobre como ela funciona para gerar significado e conhecimento.
5. Avaliação das Outras Alternativas
- B) moralidade, C) metafísica, D) ontologia, E) estética: Embora a filosofia de Carnap tenha implicações para todas essas áreas (ele as consideraria campos de "pseudoproblemas"), o debate central travado entre ele e Quine nos textos não é sobre o conteúdo dessas áreas, mas sobre a ferramenta que as expressa: a linguagem e seu potencial para o conhecimento.