Linguagens Question #019f69c4
Texto 2A1-I
(Q1) Tinha de deixar aquela casa. Não sentia saudades. Era uma casa escura, com um cheiro doce e enjoado que nunca passou. Não tinha vista a não ser a da janela que dava para o edifício ao lado. E só via as cozinhas. Quando anoitecia, toda aquela vizinhança começava, ao mesmo tempo, a fazer bife, e o ar ficava cheirando a cebola e alho. Ia-se embora, com alegria até, porque o outro apartamento tinha uma janela de onde era possível ver o mar, não todo, mas um pedacinho que, lá um dia, talvez lhe mostrasse um navio passando. Claro, arejado.
Mas era preciso levar suas poucas coisas. Uma calça, duas camisas, um rádio de cabeceira, talcos, dentifrícios, uma lavanda, quatro ou cinco toalhas. Cabia tudo em uma mala só. Mas tinha a gaveta. Tinha de desocupar aquela gaveta. Cinco ou seis cartas guardadas ali.
Resolveu ler, a começar pela primeira, pondo-as em ordem pelas datas. Ela dizia tanto “te amo, te amo”... e contava que andara chorando na rua, que o fora esperar na estação, que a parenta já andava desconfiada de sua tristeza. No fundo de um envelope, o raminho de cabelo. Havia escurecido com o tempo, mas era um pedacinho de sua beleza e, de qualquer forma, um pouco de presença a querer bem.
Com referência às ideias e aos aspectos linguísticos do texto
2A1-I, julgue os itens a seguir.
Infere-se do texto que a personagem, ao longo de toda a narrativa, está sendo tomada por um tipo de nostalgia que não está relacionada ao espaço físico, mas, sim, a uma saudade de um estado — o da primeira paixão.
Certo
Errado
Official Explanation / Community Explanations
A questão propõe uma análise de interpretação de textos/literária acerca dos sentimentos da personagem narrada. Ao julgar o item como Certo (C), confirma-se que a melancolia ou nostalgia que a acomete não se deve a um distanciamento geográfico ou a um apego a um lugar físico (como a terra natal ou uma casa antiga), mas sim a um sentimento puramente subjetivo e temporal: a saudade de uma condição existencial e afetiva específica, que é a vivência de sua primeira paixão. Na interpretação de textos literários, esse deslocamento da nostalgia do âmbito espacial para o âmbito psicológico/emocional é um recurso comum para aprofundar a subjetividade do eu lírico ou da personagem.