Pregunta de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019e5c02
Naquela manhã de céu limpo e ar leve, devido à chuva torrencial da noite anterior, saí a caminhar com o sol ainda escondido para tomar tenência dos primeiros movimentos da vida na roça. Num demorou nem um tiquinho e o cheiro intenso do café passado por Dona Linda me invadiu as narinas e fez a fome se acordar daquela rema letárgica derivada da longa noite de sono. Levei as mãos até a água que corria pela bica feita de bambu e o contato gelado foi de arrepiar. Mas fui em frente e levei as mãos em concha até o rosto. Com o impacto, recuei e me faltou o fôlego por alguns instantes, mas o despertar foi imediato. Já aceso, entrei na cozinha na buscação de derrubar a fome e me acercar do aconchego do calor do fogão à lenha. Foi quando dei reparo da figura esguia e discreta de uma senhora acompanhada de um garoto aparentando uns cinco anos de idade já aboletada na ponta da mesa em proseio íntimo com a dona da casa. Depois de um vigoroso “Bom dia!”, de um vaporoso aperto de mãos nas apresentações de praxe, fiquei sabendo que Dona Flor de Maio levava o filho Adão para tratamento das feridas que pipocavam por seu corpo, provocando pequenas pústulas de bordas avermelhadas.
A variedade linguística da narrativa é adequada à descrição dos fatos. Por isso, a escolha de determinadas palavras e expressões usadas no texto está a serviço da
localização dos eventos de fala no tempo ficcional.
composição da verossimilhança do ambiente retratado.
restrição do papel do narrador à observação das cenas relatadas.
construção mística das personagens femininas pelo autor do texto.
caracterização das preferências linguísticas da personagem masculina.
Explicación Oficial / Explicaciones de la Comunidad
A resposta correta é a que afirma que a escolha de palavras e expressões está a serviço da composição da verossimilhança do ambiente retratado. O texto utiliza uma variedade linguística marcada por regionalismos e coloquialismos (como "tomar tenência", "num demorou nem um tiquinho", "rema letárgica", "buscação", "aboletada", "proseio") que são típicos da fala rural brasileira. Essas escolhas lexicais e sintáticas criam um efeito de realismo, fazendo com que o leitor sinta que está imerso no ambiente da roça descrito. A verossimilhança é a qualidade de parecer verdadeiro ou plausível dentro do universo ficcional, e o uso dessa variedade linguística contribui diretamente para isso.
As demais alternativas estão incorretas: a localização no tempo ficcional (A) não é o foco, pois as expressões não marcam temporalidade específica; o papel do narrador (C) não é restrito à observação, já que ele participa e descreve sensações; a construção mística das personagens femininas (D) não é evidenciada, pois Dona Linda e Dona Flor de Maio são retratadas de forma cotidiana; e a caracterização das preferências linguísticas da personagem masculina (E) é limitada, pois o narrador é masculino, mas a variedade usada reflete o ambiente, não preferências individuais.