Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
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Pregunta de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019e5bdd

Enunciado de la Pregunta
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
#Gêneros textuais
Medio

De próprio punho (Q2) A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, mais rotunda e mais cheia de arestas. É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus e o mundo. A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso. No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais ainda as adultas) precisa conviver. As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”

RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).

O elemento que caracteriza esse texto como uma crônica é a

A

defesa das opiniões da autora sobre um tema de interesse coletivo.

B

exposição sobre o uso de tecnologias nas práticas de escrita atuais.

C

abordagem de fatos do contexto pessoal em uma perspectiva reflexiva.

Correcto
D

utilização de recursos linguísticos para a interlocução direta com o leitor.

E

apresentação de acontecimentos segundo a ordem de sucessão no tempo.

Explicación Oficial / Explicaciones de la Comunidad

Para identificar o elemento que caracteriza o texto como uma crônica, devemos analisar as propriedades de gênero do texto com base no tom e na estrutura empregados pela autora.

1. Definição e Características da Crônica

A crônica é um gênero híbrido entre o jornalismo e a literatura que se destaca principalmente por:

  • Foco no Cotidiano: Parte de acontecimentos simples, banais e cotidianos (como deparar-se com a exigência burocrática de assinar um papel "de próprio punho" ou escrever bilhetes na geladeira).
  • Perspectiva Subjetiva e Pessoal: O autor narra em primeira pessoa e expõe suas próprias memórias, hábitos e sentimentos íntimos sobre esses acontecimentos.
  • Tom Reflexivo/Filosófico: Mais do que apenas contar uma história ou expor dados, o cronista utiliza esses pequenos eventos diários como pretexto para desenvolver uma reflexão mais profunda e subjetiva sobre a condição humana, a sociedade e a passagem do tempo.

2. Análise do Texto "De próprio punho"

No texto, Ana Elisa Ribeiro parte de uma vivência puramente pessoal e doméstica (o hábito de escrever garranchos em post-its em sua mesa de escritório e deixar lembretes para os familiares na porta da geladeira) para conduzir o leitor a uma reflexão filosófica e sociológica sobre a evolução da escrita humana, o papel das tecnologias (da caneta ao teclado de computador) e o fluxo ansiogênico das obrigações da vida adulta contemporânea.

Portanto, o texto se consolida como uma crônica devido à abordagem de fatos do contexto pessoal em uma perspectiva reflexiva.


Análise dos Distratores (Alternativas Incorretas)

  • defesa das opiniões da autora sobre um tema de interesse coletivo: Incorreta. Esse elemento caracteriza predominantemente os gêneros argumentativos, como o artigo de opinião ou o editorial. Embora a cronista exponha reflexões de interesse coletivo, ela o faz por meio de uma narrativa leve e confessional, sem a estrutura rígida de persuasão e defesa de tese de um artigo de opinião.
  • exposição sobre o uso de tecnologias nas práticas de escrita atuais: Incorreta. A descrição de como a escrita transita do "punho ao pixel" constitui o tema de apoio sobre o qual a autora reflete, mas a mera exposição informativa de um tema científico ou tecnológico é característica de textos expositivos ou reportagens, e não o que define o gênero literário crônica.
  • utilização de recursos linguísticos para a interlocução direta com o leitor: Incorreta. A conversa amigável com o leitor (como na pergunta "Curioso, não?") é um recurso comum em crônicas para estabelecer proximidade, mas não é um traço exclusivo desse gênero (pode ocorrer em cartas, blogs, podcasts) e nem é o elemento definidor que confere o status de crônica ao texto.
  • apresentação de acontecimentos segundo a ordem de sucessão no tempo: Incorreta. A ordenação cronológica de fatos é uma característica estrutural básica da tipologia narrativa (como contos, diários e notícias), mas não é o elemento específico que distingue a crônica das demais narrativas de ficção ou não ficção.