Pregunta de Ciências Humanas #019f69c6
(Q14) Nos Estados Unidos da América, no século XIX, a passagem da polícia do sistema de justiça para o de governo da cidade significou também a passagem da noção de caça aos criminosos para a prevenção dos crimes, em um deslocamento do ato para o ator. Como na Europa, a ênfase na prevenção teria representado nova atitude diante do controle social, com o desenvolvimento pela polícia de uma habilidade específica, a de explicar e prevenir o comportamento criminoso. Isso acabou redundando no foco nas “classes perigosas”, ou seja, em setores específicos da sociedade vistos como produtores de comportamento criminoso. Nesse processo, desenvolveram-se os vários campos de saber vinculados aos sistemas de justiça criminal, polícia e prisão, voltados para a identificação, para a explicação e para a prevenção do comportamento criminoso, agora visto como “desviante”, como a medicina legal, a psiquiatria e, especialmente, a criminologia.
Na Europa ocidental, as novas instituições estatais de vigilância deveriam controlar o exercício da força em sociedades em que os níveis de violência física nas relações interpessoais e do Estado com a sociedade estavam em declínio. De acordo com a difundida teoria do processo civilizador, de Norbert Elias, no Ocidente moderno, a agressividade, assim como outras emoções e prazeres, foi domada, “refinada” e “civilizada”. O autor estabelece um contraste entre a violência “franca e desinibida” do período medieval, que não excluía ninguém da vida social e era socialmente permitida e até certo ponto necessária, e o autocontrole e a moderação das emoções que acabaram por se impor na modernidade. A conversão do controle que se exercia por terceiros no autocontrole é relacionada à organização e à estabilização de Estados modernos, nos quais a monopolização da força física em órgãos centrais permitiu a criação de espaços pacificados. Em tais espaços, os indivíduos passaram a ser submetidos a regras e leis mais rigorosas, mas ficaram mais protegidos da irrupção da violência na sua vida, na medida em que as ameaças físicas tornaram-se despersonalizadas e monopolizadas por especialistas.
C. Mauch. Considerações sobre a história da polícia. In: MÉTIS: história & cultura, v. 6, n.º 11, jan./jun. 2007, p. 107-19 (com adaptações).
Um dos traços característicos da modernidade, segundo Norbert Elias, é a renúncia de certas emoções e de certos prazeres pelos indivíduos, que, em compensação, passaram a ser protegidos da violência devido à atuação do Estado.
Certo
Errado
Explicación Oficial / Explicaciones de la Comunidad
A questão aborda a teoria do sociólogo Norbert Elias, especificamente o seu conceito de Processo Civilizador.
De acordo com Elias, a transição para a modernidade é caracterizada por uma profunda interrelação entre a organização do Estado (sociogênese) e a autorregulação psíquica dos indivíduos (psicogênese).
À medida que o Estado moderno se consolida, ele assume o monopólio legítimo da violência física e da tributação. Com a pacificação do espaço social promovida por esse monopólio estatal, os indivíduos não precisam mais recorrer constantemente à autodefesa armada ou à violência física direta para sobreviver. Em contrapartida, para viver em uma sociedade pacificada e altamente interdependente, os indivíduos passam a exercer um autocontrole cada vez mais rígido sobre suas próprias pulsões, agressividade, emoções e prazeres imediatos (o que Elias chama de elevação do limiar de pudor e de vergonha).
Portanto, a afirmação está inteiramente correta ao identificar que a modernidade exige dos indivíduos a renúncia e o controle de certas emoções e prazeres em troca da segurança e da proteção contra a violência física garantidas pelo Estado.