Questão de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019e5bf0
Menina
A máquina de costura avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mãe era, com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos, enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura. Interrompia às vezes seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido da mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita chamava-a de ( ) como quem diz. Tentava não pensar as palavras, mas sabia que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome depressa depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e — Mamãe, o que é desquitada? — atirou rápida com uma voz sem timbre. Tudo ficou suspenso, se alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia — sentia Ana Lúcia. Era muito forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mãe parada com a tesoura no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina avançando desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz luz.
Escrita na década de 1960, a narrativa põe em evidência uma dramaticidade centrada na:
insinuação da lacuna familiar gerada pela ausência da figura paterna.
associação entre a angústia da menina e a reação intempestiva da mãe.
relação conflituosa entre o trabalho doméstico e a emancipação feminina.
representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança.
expressão de dúvidas existenciais intensificadas pela percepção do abandono.
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
A resposta correta é a que aponta a representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança. No conto, a menina observa a mãe costurando e, em um momento de tensão, pergunta "o que é desquitada?", termo carregado de estigma social na época. A narrativa é centrada no olhar infantil, que capta a dramaticidade do silêncio e da hesitação da mãe, revelando como a criança percebe e internaliza preconceitos sociais. As demais alternativas não se sustentam: a ausência da figura paterna não é mencionada ou insinuada; a mãe não reage intempestivamente, mas fica paralisada; o trabalho doméstico não é conflituoso com emancipação feminina; e dúvidas existenciais ou abandono não são o foco, pois a menina busca entender um termo social, não questões metafísicas.