Questão de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019e5c03
Galinha cega
O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, aí… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.
Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.
Ao apresentar uma cena em que um menino atira milho às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador explora um recurso que conduz a uma expressividade fundamentada na
captura de elementos da vida rural, de feições peculiares.
caracterização de um quintal de sítio, espaço de descobertas.
confusão intencional da marcação do tempo, centrado na infância.
apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afetivamente.
fragmentação do conflito gerador, distendido como apoio à emotividade.
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
A resposta correta é a que aponta a apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afetivamente. No fragmento, o narrador alterna entre a perspectiva do dono (que observa a galinha e tenta entender sua desorientação) e a da própria galinha (que sente a escuridão e não compreende o que ocorre). Essa alternância de focos narrativos, com forte carga emocional, é o recurso que confere expressividade ao texto. As demais alternativas estão incorretas: a que menciona a captura de elementos da vida rural limita-se ao cenário, sem abordar o recurso narrativo; a que fala da caracterização de um quintal de sítio também se restringe ao espaço; a que sugere confusão intencional da marcação do tempo não se sustenta, pois o tempo não é confundido; e a que propõe fragmentação do conflito gerador não se aplica, já que o conflito (a cegueira da galinha) é apresentado de forma contínua, não fragmentada.