Questão de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019e5c0f
O branco açúcar que adoçará meu café / nesta manhã de Ipanema / não foi produzido por mim / nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. / Vejo-o puro / e afável ao paladar / como beijo de moça, água / na pele, flor / que se dissolve na boca. Mas este açúcar / não foi feito por mim. / Este açúcar veio / da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. / Este açúcar veio / de uma usina de açúcar em Pernambuco / ou no Estado do Rio / e tampouco o fez o dono da usina. / Este açúcar era cana / e veio dos canaviais extensos / que não nascem por acaso e(ou) / no regaço do vale. / (...) / Em usinas escuras, / homens de vida amarga / e dura / produziram este açúcar / branco e puro / com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. (Ferreira Gullar)
A antítese que configura uma imagem da divisão social do trabalho na sociedade brasileira é expressa poeticamente na oposição entre a doçura do branco açúcar e
o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar.
o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve na boca.
o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde se produz o açúcar.
a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço do vale.
o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras.
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
A antítese central do poema de Ferreira Gullar contrapõe a doçura e pureza do açúcar branco, apreciado pelo eu lírico em sua rotina matinal, à realidade amarga e dura dos trabalhadores que o produzem. Essa oposição evidencia a divisão social do trabalho no Brasil, onde o produto final é consumido de forma prazerosa por uma elite, enquanto os trabalhadores enfrentam condições degradantes nos canaviais e usinas. A alternativa que menciona o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras capta exatamente essa contradição, sendo a resposta correta.
As demais alternativas não expressam a antítese da divisão social do trabalho: a opção que cita o dono da mercearia refere-se a um intermediário comercial, não ao trabalho produtivo; a que menciona beijo de moça, água e flor são metáforas sensoriais que reforçam a doçura, não a oposição; a que fala do dono do engenho representa o proprietário, não o trabalhador; e a que destaca a beleza dos canaviais idealiza a paisagem, ignorando o sofrimento dos cortadores de cana.