Questão de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019e5be9
Mais iluminada que outras
Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos.
Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem — dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados.
Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora
revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.
questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.
reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.
sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.
mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
A resposta correta é a que afirma que os recursos expressivos revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade. A narradora descreve seu corpo de forma fragmentada e violenta, associando-o a imagens de força e resistência, mas também a marcas históricas de opressão. A menção à abolição da escravidão no Ceará e aos corpos interrompidos no porto conecta a experiência individual da narradora à memória coletiva da violência racial. Além disso, a descrição do corpo feminino como "faminto, dentado, cruel, capaz e violento" subverte padrões estéticos e revela uma identidade forjada na resistência contra opressões de gênero e raça.
A alternativa que questiona o pioneirismo do Ceará está incorreta porque o texto não questiona esse fato histórico, apenas o menciona como parte da narrativa. A opção que fala em reprodução de padrões estéticos para valorização da autoestima feminina é equivocada, pois a narradora rejeita padrões convencionais de beleza e enfatiza a força e a violência de seu corpo. A sugestão de atmosfera onírica e resgate da espiritualidade não se sustenta, já que o texto é marcado por imagens concretas e violentas, não por sonhos ou espiritualidade. Por fim, a alternativa que menciona a mimetização dos corpos na paisagem está incorreta, pois o texto não descreve a paisagem como reflexo dos corpos; ao contrário, a narradora se identifica como "animal da caatinga", mas a violência é atribuída diretamente aos corpos, não à paisagem.