Questão de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019f6986
Singular ocorrência
— Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.
— De preto?
— Justamente; lá vai entrando; entrou.
— Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma recordação de outro tempo, e não há de ser muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.
— Deve ter quarenta e seis anos.
— Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?
— Não.
— Bem; o marido ainda vive. É velho?
— Não é casada.
— Solteira?
— Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e chegará lá. Morava na Rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa.
No diálogo, descortinam-se aspectos da condição da mulher em meados do século XIX. O ponto de vista dos personagens manifesta conceitos segundo os quais a mulher
encontra um modo de dignificar-se na prática da caridade.
preserva a aparência jovem conforme seu estilo de vida.
condiciona seu bem-estar à estabilidade do casamento.
tem sua identidade e seu lugar referendados pelo homem.
renuncia à sua participação no mercado de trabalho.
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
O diálogo expõe a visão de dois interlocutores masculinos sobre uma mulher que passa na rua. Ao tentarem decifrar quem ela é, os personagens masculinos rotulam e definem a mulher com base em critérios de estado civil (se é casada, viúva ou solteira), aparência física, idade e ocupação social permitida na época ("não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas...").
Dessa forma, a identidade, a respeitabilidade e o lugar social da mulher na sociedade patriarcal do século XIX são construídos e chancelados (referendados) pelo olhar e pelo julgamento do homem, o que valida a alternativa D.
Análise das demais alternativas:
- A está incorreta porque o ato de dar esmola é apenas uma ação inicial que chama a atenção do observador, não o elemento que define sua dignidade geral no diálogo.
- B está incorreta porque a observação sobre a aparência da mulher ser "conservada" é apenas um comentário informal entre os interlocutores, e não um conceito estruturante sobre a condição feminina.
- C está incorreta porque a personagem sequer é casada ("Não é casada", "Assim, assim"), logo sua condição não está atrelada à estabilidade matrimonial.
- E está incorreta porque o texto sugere que as opções de trabalho para a mulher daquela época eram extremamente limitadas e vigiadas pela moral social, não se tratando de uma simples "renúncia" voluntária dela ao mercado de trabalho.