Questão de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019f6986
Introdução a Alda
Dizem que ninguém mais a ama. Dizem que foi uma boa pessoa. Sua filha de doze anos não a visita nunca e talvez raramente se lembre dela. Puseram-na numa cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos, de onde não pôde mais sair. Lá, todos gritam-lhe irritados, mal se aproxima, ou lhe batem, como se faz com sacos de areia para treinar os músculos.
Sei que para todos ela já não é, e ninguém lhe daria uma maçã cheirosa, bem vermelha. Mas não é verdade que alguém não a possa mais amar. Eu amo-a. Amo-a quando a vejo por trás das grades de um palácio, onde se refugiou princesa, chegada pelos caminhos da dor. Quando fora do reino sente o mundo de mil lanças, e selvagem prepara-se, posta no olhar. Amo-a quando criança brinca na areia sem medo. Uns pés descalços, uma mulher sem intenções. Cercada de mundo, às vezes sofrendo-o ainda.
Ao descrever uma mulher internada em um hospital psiquiátrico, o narrador compõe um quadro que expressa sua percepção
irônica quanto aos efeitos do abandono familiar.
resignada em face dos métodos terapêuticos em vigor.
alimentada pela imersão lírica no espaço da segregação.
inspirada pelo universo pouco conhecido da mente humana.
demarcada por uma linguagem alinhada à busca da lucidez.
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
A alternativa C está correta porque o narrador, ao se deparar com a realidade brutal e desumanizante de um hospital psiquiátrico (caracterizado como uma "cidade triste" e um espaço de segregação e violência), opta por uma abordagem de sensibilidade poética e empatia profunda para descrever Alda. Através de metáforas líricas ("onde se refugiou princesa", "palácio", "brinca na areia sem medo"), o narrador humaniza a paciente e expressa um afeto genuíno ("Eu amo-a"), transcendendo o sofrimento do ambiente asilar por meio da poesia.
Análise das alternativas incorretas:
- A está incorreta porque o tom do narrador em relação ao abandono familiar não é de ironia, mas sim de profunda melancolia, compaixão e solidariedade.
- B está incorreta porque o narrador não se mostra "resignado" (conformado) diante dos maus-tratos descritos ("todos gritam-lhe irritados [...] ou lhe batem"). Pelo contrário, há uma clara denúncia implícita dessa violência.
- D está incorreta porque o foco do texto não é uma investigação científica, psicológica ou clínica sobre o "universo pouco conhecido da mente humana", mas sim a relação afetiva e humanitária estabelecida com a paciente.
- E está incorreta porque a linguagem poética e subjetiva utilizada ("grades de um palácio", "mundo de mil lanças") afasta-se de uma busca puramente racional pela "lucidez", aproximando-se muito mais do delírio poético e da sensibilidade emocional como formas de conexão humana.