Questão de Linguagens #019f69c6
(Q16) Nos Estados Unidos da América, no século XIX, a passagem da polícia do sistema de justiça para o de governo da cidade significou também a passagem da noção de caça aos criminosos para a prevenção dos crimes, em um deslocamento do ato para o ator. Como na Europa, a ênfase na prevenção teria representado nova atitude diante do controle social, com o desenvolvimento pela polícia de uma habilidade específica, a de explicar e prevenir o comportamento criminoso. Isso acabou redundando no foco nas “classes perigosas”, ou seja, em setores específicos da sociedade vistos como produtores de comportamento criminoso. Nesse processo, desenvolveram-se os vários campos de saber vinculados aos sistemas de justiça criminal, polícia e prisão, voltados para a identificação, para a explicação e para a prevenção do comportamento criminoso, agora visto como “desviante”, como a medicina legal, a psiquiatria e, especialmente, a criminologia.
Na Europa ocidental, as novas instituições estatais de vigilância deveriam controlar o exercício da força em sociedades em que os níveis de violência física nas relações interpessoais e do Estado com a sociedade estavam em declínio. De acordo com a difundida teoria do processo civilizador, de Norbert Elias, no Ocidente moderno, a agressividade, assim como outras emoções e prazeres, foi domada, “refinada” e “civilizada”. O autor estabelece um contraste entre a violência “franca e desinibida” do período medieval, que não excluía ninguém da vida social e era socialmente permitida e até certo ponto necessária, e o autocontrole e a moderação das emoções que acabaram por se impor na modernidade. A conversão do controle que se exercia por terceiros no autocontrole é relacionada à organização e à estabilização de Estados modernos, nos quais a monopolização da força física em órgãos centrais permitiu a criação de espaços pacificados. Em tais espaços, os indivíduos passaram a ser submetidos a regras e leis mais rigorosas, mas ficaram mais protegidos da irrupção da violência na sua vida, na medida em que as ameaças físicas tornaram-se despersonalizadas e monopolizadas por especialistas.
C. Mauch. Considerações sobre a história da polícia. In: MÉTIS: história & cultura, v. 6, n.º 11, jan./jun. 2007, p. 107-19 (com adaptações).
Julgue o item a seguir, a respeito das ideias do texto:
Infere-se do segundo parágrafo do texto que a agressividade humana passou por um processo de transformação gradativo de perda de aspectos primitivos e animalescos.
- Certo
- Errado
Certo
Errado
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
A questão exige do candidato a habilidade de realizar uma inferência textual a partir do segundo parágrafo do texto de apoio.
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Entendendo o Conceito de Inferência:
A inferência é o processo mental pelo qual chegamos a uma conclusão lógica com base em premissas dadas. No contexto de provas de concursos, inferir (ou depreender) significa identificar uma informação que não está escrita de forma literal (explícita), mas que pode ser deduzida logicamente a partir das pistas e argumentos apresentados pelo autor. -
Análise do Item:
O item afirma que a agressividade humana passou por uma transformação gradual caracterizada pela perda de traços primitivos e animalescos. Como o gabarito oficial é Certo (C), o segundo parágrafo do texto aborda o processo civilizatório, cultural ou social que atuou sobre os impulsos humanos. Esse processo canalizou, refinou ou reprimiu a agressividade bruta (que antes se assemelhava à dos animais ou dos ancestrais primitivos), transformando-a em comportamentos socialmente aceitáveis ou mediados por regras e instituições. -
Dica de Prova:
Ao analisar itens de inferência na banca Cebraspe, certifique-se de que a conclusão proposta não extrapola o texto. No caso, a relação entre "evolução/transformação" e "perda de traços primitivos" é uma consequência lógica direta de teorias sobre o processo civilizatório (como as de Norbert Elias ou Freud), frequentemente cobradas em provas de interpretação de textos dissertativos.