Questão de Língua Portuguesa #01a0df6f
(Q6) “A liberdade medieval”, disse o historiador Lord Acton, “difere da moderna nisto: a primeira depende de propriedade”. Mas a diferença é certamente uma diferença apenas em grau, não em espécie. O dinheiro pode ter menos influência num tribunal moderno do que num tribunal medieval. Mas e fora do tribunal? Fora, é verdade, estou legalmente livre para trabalhar ou não trabalhar, como eu bem escolher, porque não sou um servo. Estou legalmente livre para viver aqui em vez de lá, porque não estou preso à terra. Eu sou livre, dentro de limites razoáveis, para me divertir como eu bem quiser. Estou legalmente livre para casar-me com qualquer pessoa; nenhum lorde me obriga a casar-me com uma garota ou viúva da mansão senhorial. A lista de todas as minhas liberdades legais ocuparia páginas e mais páginas datilografadas. Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora.
Mas vejamos o que acontece se eu tento fazer uso da minha liberdade legal. Não sendo um servo, eu resolvo parar de trabalhar; como resultado, começo a passar fome na próxima segunda-feira. Não sendo ligado à terra, eu opto por viver em Grosvenor Square e Taormina; infelizmente, o aluguel da minha casa em Londres equivale ao quíntuplo da minha renda anual. Não sendo submetido às perseguições de intrometidos eclesiásticos, eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar; mas não tenho roupas adequadas, e acabo gastando mais no entretenimento da minha noite do que consigo ganhar em uma semana.
Todas as minhas liberdades legais acabam sendo, na prática, tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais. Os ricos podem comprar vastas quantidades de liberdade; os pobres precisam se virar sem ela, muito embora, por lei e teoricamente, eles tenham tanto direito à mesma quantidade de liberdade quanto têm os ricos.
Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue os itens a seguir.
O vocábulo “como” apresenta o mesmo valor semântico no trecho “como eu bem escolher” (quinto período do primeiro parágrafo) e no trecho “como eram as liberdades dos meus antepassados medievais” (primeiro período do terceiro parágrafo).
Certo
Errado
Explicação Oficial / Explicações da Comunidade
Gabarito Oficial: Errado
1. Análise da Questão
A questão exige a identificação do valor semântico assumido pela palavra polissêmica e polifuncional “como” em duas ocorrências distintas no texto: no trecho “como eu bem escolher” e em “como eram as liberdades dos meus antepassados medievais”.
2. Fundamentação Teórica / Legal
A palavra “como” pode atuar em diversas classes e com variados valores semânticos:
- Conformativo / Modal: quando exprime conformidade, modo ou maneira (equivalendo a conforme, segundo, da maneira que). No segmento “estou legalmente livre para trabalhar ou não trabalhar, como eu bem escolher”, o vocábulo equivale a da maneira que / conforme eu bem escolher (oração subordinada adverbial modal/conformativa).
- Comparativo: quando estabelece um confronto de igualdade ou analogia, comumente articulado com advérbios de intensidade (tão... como, tanto... como). No segmento “tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais”, o “como” compõe a correlação comparativa tão... como, introduzindo o segundo termo de uma comparação.
3. Conclusão / Análise das Alternativas
Os dois empregos possuem valores semântico-sintáticos distintos: o primeiro possui valor modal/conformativo, enquanto o segundo introduz uma oração subordinada adverbial comparativa. Portanto, a afirmação de que apresentam o mesmo valor semântico está incorreta.
Item ERRADO.