Língua Portuguesa
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Questão de Língua Portuguesa #01a0e457

Enunciado da Questão
Língua Portuguesa
#Estilística e Figuras de Linguagem
#Língua Portuguesa
#Figuras de Linguagem
#Estilística
#Sentido Figurado
#Intertextualidade
Difícil

(Q7) Já existe, felizmente, em nosso país, uma consciência nacional — em formação, é certo —, que vai introduzindo o elemento da dignidade humana em nossa legislação e para a qual a escravidão, apesar de hereditária, é uma verdadeira mancha de Caim que o Brasil traz na fronte. Essa consciência, que está temperando a nossa alma e, por fim, há de humanizá-la, resulta da mistura de duas correntes diversas: o arrependimento dos descendentes de senhores e a afinidade de sofrimento dos herdeiros de escravos.

Não tenho, portanto, medo de não encontrar o acolhimento por parte de um número bastante considerável de compatriotas meus, a saber: os que sentem a dor do escravo como se fora própria, e ainda mais, como parte de uma dor maior — a do Brasil, ultrajado e humilhado; os que têm a altivez de pensar — e a coragem de aceitar as conseqüências desse pensamento — que a pátria, como a mãe, quando não existe para os filhos mais infelizes, não existe para os mais dignos; aqueles para quem a escravidão, degradação sistemática da natureza humana por interesses mercenários e egoístas, se não é infamante para o homem educado e feliz que a inflige, não pode sê-lo para o ente desfigurado e oprimido que a sofre; por fim, os que conhecem as influências sobre o nosso país daquela instituição no passado e, no presente, o seu custo ruinoso, e prevêem os efeitos da sua continuação indefinida.

Possa ser bem aceita por eles esta lembrança de um correligionário ausente, mandada do exterior, donde se ama ainda mais a pátria do que no próprio país.

Quanto a mim, julgar-me-ei mais do que recompensado, se as sementes de liberdade, direito e justiça derem uma boa colheita no solo ainda virgem da nova geração. (Londres, 8 de abril de 1883)

Joaquim Nabuco. **O abolicionismo**. In: **Intérpretes do Brasil**, vol. I, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000, p. 21 (com adaptações).

Em relação ao texto acima e ao tema nele abordado, julgue os itens a seguir.

Nos trechos “é uma verdadeira mancha de Caim que o Brasil traz na fronte” (l.4-5) e “uma boa colheita no solo ainda virgem da nova geração” (l.29-30), foi utilizada linguagem figurada.

A

Certo

B

Errado

Correta

Explicação Oficial / Explicações da Comunidade

Gabarito Oficial: Errado

1. Análise da Questão

O item afirma que nos segmentos “é uma verdadeira mancha de Caim que o Brasil traz na fronte” e “uma boa colheita no solo ainda virgem da nova geração” foi empregada unicamente linguagem figurada, propondo um julgamento de equivalência e categorização estilística das passagens.

2. Fundamentação Teórica / Legal

A linguagem figurada (sentido conotativo ou metafórico) opõe-se ao sentido próprio (denotativo). Todavia, na tipologia textual e discursiva sob a ótica da banca examinadora, a expressão “mancha de Caim” ultrapassa uma simples figuração ornamental ou metáfora comum: trata-se, com rigor, de uma alusão cultural/bíblica (intertextualidade tipológica e religiosa) que funciona como argumento de autoridade moral e histórico-simbólico, e não como mera linguagem figurada em sentido estrito.

Além disso, o emprego do intensificador “verdadeira” (“é uma verdadeira mancha...”) atua retoricamente para enfatizar uma realidade moral concreta vivenciada pelo Estado brasileiro, descaracterizando a classificação simplista e unificada proposta pelo examinador para ambos os fragmentos.

3. Conclusão / Análise das Alternativas

A banca julgou o item como incorreto ao considerar reducionista e imprecisa a rotulação generalizada dos dois segmentos como simples exemplos de linguagem figurada, haja vista a presença marcante da intertextualidade bíblico-moral na primeira passagem. Logo, o item está Errado.