Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e5c05
À garrafa
Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.
Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.
Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,
numa explosão
de diamantes.
A reflexão acerca do fazer poético é um dos mais marcantes atributos da produção literária contemporânea, que, no poema de José Paulo Paes, se expressa por um(a)
reconhecimento, pelo eu lírico, de suas limitações no processo criativo, manifesto na expressão “Por translúcida pões”.
subserviência aos princípios do rigor formal e dos cuidados com a precisão metafórica, como se observa em “prisão da forma”.
visão progressivamente pessimista, em face da impossibilidade da criação poética, conforme expressa o verso “e te estilhaces, suicida”.
processo de contenção, amadurecimento e transformação da palavra, representado pelos versos “numa explosão / de diamantes”.
necessidade premente de libertação da prisão representada pela poesia, simbolicamente comparada à “garrafa” a ser “estilhaçada”.
Official Explanation / Community Explanations
A resposta correta é a que identifica no poema um processo de contenção, amadurecimento e transformação da palavra, representado pelos versos “numa explosão / de diamantes”. O poema “À garrafa” metaforiza o fazer poético: a garrafa, com seu estreito gargalo e transparência, simboliza a forma poética que contém e molda a palavra. O eu lírico adquire a astúcia de conter e conter-se, e a garrafa, ao se estilhaçar, explode em diamantes – metáfora da transformação da palavra em poesia, algo belo e valioso. As demais alternativas são incorretas: a que menciona “Por translúcida pões” não expressa limitação, mas sim a capacidade de revelar o interior; a que cita “prisão da forma” não indica subserviência, mas sim a tensão entre forma e liberdade; a que fala em pessimismo ignora o desfecho positivo da explosão em diamantes; e a que defende libertação da poesia confunde o sentido, pois a garrafa não é a poesia, mas a forma que a poesia utiliza para se transformar.