Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019e354a
— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.
— Não pode? — perguntei com assombro. E por quê?
Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.
— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.
Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que
diferencia a produção artística do registro padrão da língua.
aproxima a literatura de dialetos sociais de pouco prestígio.
defende a relação entre a fala e o estilo literário de um autor.
contrapõe o preciosismo linguístico a situações de coloquialidade.
associa o uso da norma culta à ocorrência de desentendimentos pessoais.
Official Explanation / Community Explanations
Análise do Fragmento de "São Bernardo"
A resposta correta é a alternativa D) contrapõe o preciosismo linguístico a situações de coloquialidade.
1. O Conflito Central: A Natureza da Escrita Literária
O diálogo entre os personagens Paulo Honório e Azevedo Gondim encena um dos debates mais clássicos da teoria literária: a relação entre a língua falada e a língua escrita na arte. As duas posições são claramente opostas e irreconciliáveis no fragmento.
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A Posição de Paulo Honório (defensor da coloquialidade): Ele critica a escrita de Gondim por ser artificial e distante da realidade. A sua frase-chave é "Há lá ninguém que fale dessa forma!". Para ele, a boa escrita deve ter a naturalidade e a veracidade da fala cotidiana (a coloquialidade). Ele se assusta com a ideia de que um artista não possa escrever como fala.
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A Posição de Azevedo Gondim (defensor do preciosismo): Ele defende uma separação radical entre a vida e a arte. Sua tese é "um artista não pode escrever como fala". Para ele, a literatura tem suas próprias regras e seu próprio código, que é diferente da linguagem usada para "discutir, briga[r], trata[r] de negócios". Essa visão valoriza uma linguagem elaborada, artificial e distinta da fala comum, o que caracteriza o preciosismo linguístico.
2. A Contraposição Explícita
O debate se estrutura, portanto, em uma contraposição (uma oposição direta) entre esses dois polos:
- Preciosismo linguístico: Representado pela escrita "pernóstica" de Gondim e sua defesa de que "a literatura é a literatura". 2. Coloquialidade: Representada pelo ideal de Paulo Honório de uma escrita que reflita a naturalidade da fala.
A discussão não é sobre qual é certo ou errado, mas sobre a existência desse conflito de visões acerca da escrita.
3. Avaliação das Outras Alternativas
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A) diferencia a produção artística do registro padrão da língua: Incorreto. O debate não é entre arte e a "norma padrão". A crítica de Paulo Honório não é que Gondim cometeu erros gramaticais, mas que seu estilo é artificial, "pernóstico". A oposição é entre o artificial e o natural (fala), não entre a arte e a gramática.
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B) aproxima a literatura de dialetos sociais de pouco prestígio: Incorreto. Paulo Honório não defende o uso de gírias ou de um dialeto específico de um grupo marginalizado. Ele defende a naturalidade da fala em geral, não de um dialeto de "pouco prestígio".
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C) defende a relação entre a fala e o estilo literário de um autor: Incorreto. Esta alternativa descreve apenas a posição de Paulo Honório, ignorando a de Gondim. A questão pede sobre o debate, que inclui as duas visões opostas.
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E) associa o uso da norma culta à ocorrência de desentendimentos pessoais: Incorreto. O desentendimento não ocorre por causa do uso da norma culta, mas por causa do que Paulo Honório percebe como afetação e falsidade no estilo de Gondim.
4. Conclusão
O fragmento de Graciliano Ramos dramatiza um debate fundamental sobre a linguagem literária, colocando em oposição direta o ideal de uma escrita artificial e elaborada (preciosismo) e o de uma escrita natural e próxima da realidade da fala (coloquialidade).```