Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
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Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Question #019f6986

Question Statement
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
#Comunicação e Linguagem
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A draga A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, no porto, como um pé de árvore ou uma duna. – E que fosse uma casa de peixes? Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferragens. Dos viventes da draga era um o meu amigo Mário-pega-sapo. […] Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológico caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo! Ai que dor! Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial. Queria  captura  em vez de  pega  para não macular (sic) a língua nacional lá dele… […] Da velha draga Abrigo de vagabundos e de bêbados, restaram as expressões:  estar na draga ,  viver na draga  por estar  sem dinheiro ,  viver na miséria Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Hollanda Para que as registre em seus léxicos Pois o povo já as registrou.

BARROS, M. **Gramática expositiva do chão**: poesia quase toda. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990 (fragmento).

Ao criticar o preciosismo linguístico do literato e ao sugerir a dicionarização de expressões locais, o poeta expressa uma concepção de língua que

A

contrapõe características da escrita e da fala.

B

ironiza a comunicação fora da norma-padrão.

C

substitui regionalisms por registros formais.

D

valoriza o uso de variedades populares.

Correct
E

defende novas regras gramaticais.

Official Explanation / Community Explanations

O poema de Manoel de Barros apresenta um claro confronto entre duas concepções de língua: a visão purista/prescritivista (representada pelo "literato oficial", que prefere o termo formal "captura" em detrimento do coloquial "pega") e a visão do próprio eu lírico, que defende e valoriza a legitimidade das manifestações populares e cotidianas da linguagem.

  • Por que a alternativa D está correta?
    Ao ironizar a atitude do literato ("para não macular a língua nacional lá dele") e ao sugerir que o dicionarista registre expressões como "estar na draga" porque "o povo já as registrou", o poeta defende que a verdadeira força da língua reside no seu uso vivo pela população. Essa perspectiva valoriza as variedades populares e coloquiais como expressões legítimas da identidade e da cultura de um povo.

  • Análise das alternativas incorretas:

  • A) Incorreta. O foco do poema não é estabelecer uma oposição estrutural ou técnica entre a modalidade escrita e a falada, mas sim defender o valor cultural e social do coloquialismo frente ao artificialismo purista.

  • B) Incorreta. O eu lírico não ironiza a comunicação fora da norma-padrão; ele a defende. A ironia é direcionada justamente ao "literato oficial" que tenta policiar o falar do povo.

  • C) Incorreta. O poeta faz o caminho inverso: ele rejeita a substituição do falar popular por registros formais e defende que o popular seja formalmente registrado nos léxicos (dicionários).

  • E) Incorreta. O poema não propõe a formulação ou alteração de regras gramaticais de caráter normativo, mas sim uma mudança de atitude e sensibilidade em relação ao léxico e ao uso cotidiano da língua.