Pregunta de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias #019e5bf0
Uma ouriça
Se o de longe esboça lhe chegar perto,
se fecha (convexo integral de esfera),
se eriça (bélica e multiespinhenta):
e, esfera e espinho, se ouriça à espera.
Mas não passiva (como ouriço na loca);
nem só defensiva (como se eriça o gato);
sim agressiva (como jamais o ouriço),
do agressivo capaz de bote, de salto
(não do salto para trás, como o gato):
daquele capaz de salto para o assalto.
Se o de longe lhe chega em (de longe),
de esfera aos espinhos, ela se desouriça.
Reconverte: o metal hermético e armado
na carne de antes (côncava e propícia),
e as molas felinas (para o assalto),
nas molas em espiral (para o abraço).
Com apuro formal, o poema tece um conjunto semântico que metaforiza a atitude feminina de:
tenacidade transformada em brandura.
obstinação traduzida em isolamento.
inércia provocada pelo desejo platônico.
irreverência cultivada de forma cautelosa.
desconfiança consumada pela intolerância.
Explicación Oficial / Explicaciones de la Comunidad
O poema de João Cabral de Melo Neto descreve a atitude de uma ouriça (fêmea do ouriço) que, inicialmente, se fecha e se eriça como defesa, mas, ao reconhecer a aproximação do ser amado, se "desouriça" e se transforma, trocando a agressividade pela abertura ao abraço. Essa metamorfose representa a passagem de uma postura defensiva e tenaz para uma atitude acolhedora e branda. A alternativa que aponta "tenacidade transformada em brandura" está correta porque capta exatamente essa transição: a ouriça abandona a rigidez (tenacidade) e se torna flexível e receptiva (brandura).
A alternativa que sugere "obstinação traduzida em isolamento" está incorreta, pois o poema não enfatiza o isolamento como resultado, mas sim a abertura para o outro. A opção que menciona "inércia provocada pelo desejo platônico" é inadequada, já que a ouriça age ativamente, não por inércia, e o desejo não é platônico, mas concreto. A alternativa que fala em "irreverência cultivada de forma cautelosa" não se aplica, pois a ouriça não é irreverente, mas sim defensiva e depois receptiva. Por fim, a opção que aponta "desconfiança consumada pela intolerância" também está errada, pois a desconfiança inicial dá lugar à confiança, não à intolerância.