Voltar ao Blog
Artigo

Théophile de Donder e a Gênese do Não-Equilíbrio: O Matemático que Deu Rumo ao Tempo

Descubra como Théophile de Donder revolucionou a termodinâmica com a Afinidade Química, fundando a Escola de Bruxelas e inspirando o Nobel de Ilya Prigogine.

25 de outubro de 2026
5 min de leitura
leandro antunes
Théophile de Donder e a Gênese do Não-Equilíbrio: O Matemático que Deu Rumo ao Tempo

O Matemático na Foto Mais Famosa da Física: O Esquecido Arquiteto do Tempo

Em outubro de 1927, os jardins do Parque Léopold, em Bruxelas, serviram de cenário para o mais célebre conclave da história da ciência moderna: o 5º Conselho de Física Solvay. Na lendária fotografia oficial do evento, vinte e nove mentes extraordinárias encaram a posteridade. A maioria dos olhares históricos converge para o duelo titânico entre Albert Einstein e Niels Bohr sobre a interpretação probabilística da Mecânica Quântica, ou para a presença austera de Hendrik Lorentz e Marie Curie na primeira fileira.

Contudo, posicionado estrategicamente na segunda fileira, logo atrás de Einstein e ao lado de Erwin Schrödinger, repousa uma figura elegante de bigode cerrado e olhar penetrante: o matemático e físico teórico belga Théophile de Donder (1872–1957).

Enquanto o cânone da física da época se debruçava sobre a dualidade onda-partícula e a geometria estática do espaço-tempo relativístico — ambos regidos por equações estritamente reversíveis temporalmente —, De Donder contemplava um abismo epistemológico que a física fundamental insistia em contornar: o mundo real queima, flui, transforma-se e envelhece. A física matemática clássica concebera um cosmos no qual o tempo era uma ilusão simétrica de coordenadas, mas na matéria viva e nas reações químicas o tempo possuía uma flecha implacável e criadora.

A termodinâmica clássica é essencialmente uma teoria da destruição de estrutura... A termodinâmica do não-equilíbrio, por outro lado, é uma teoria da criação de estrutura.

A singularidade da trajetória de Théophile de Donder reside no fato de ele não ter sido um químico empírico de laboratório, mas um analista matemático rigoroso forjado nos princípios variacionais mais abstratos. Inspirado pelo cálculo tensorial da Relatividade Geral de Einstein e pela sofisticação analítica de Henri Poincaré, De Donder percebeu que a termodinâmica clássica do século XIX — de Sadi Carnot, Rudolf Clausius e Josiah Willard Gibbs — havia conquistado precisão monumental ao custo de um imobilismo estéril: ela descrevia apenas estados ideais de equilíbrio ou transformações infinitamente lentas (quase-estáticas), nas quais nada de verdadeiramente novo pode emergir.

Ao desafiar o consenso disciplinar de sua época, De Donder empreendeu a tarefa hercúlea de construir o formalismo matemático exato para as transformações reais, espontâneas e irreversíveis, fundando o alicerce da célebre Escola de Termodinâmica de Bruxelas na Université Libre de Bruxelles (ULB).

Da Análise Pura à Afinidade Química: A Tensão Disciplinar

No início do século XX, a química física tradicional encarava com ceticismo a invasão do formalismo matemático abstrato em seus domínios termoquímicos. A afinidade química era tratada frequentemente como um conceito nebuloso e semi-antropomórfico, uma vaga tendência dos elementos a se combinarem herdada dos alquimistas e reformulada de maneira descontínua por Hermann von Helmholtz e Jacobus Henricus van 't Hoff.

De Donder compreendeu que, para integrar a química à mecânica analítica e à relatividade, era imperativo quantificar a força motriz de uma reação fora do equilíbrio por meio de uma variável de estado dinâmica. Introduziu, com rigor axiomático, duas variáveis complementares que transformaram a termodinâmica moderna:

  1. O grau de avanço da reação (), que quantifica a evolução microscópica e macroscópica da transformação molecular;
  2. A Afinidade Química (), uma força generalizada no sentido lagrangiano, definida como a derivada parcial da energia livre em relação ao grau de avanço.
A=−∑kνkμk\mathcal{A} = -\sum_{k} \nu_k \mu_k

Exegese da Afinidade de De Donder

Na equação fundamental de De Donder, cada termo carrega um significado físico e químico fulcral:

  • representa os coeficientes estequiométricos dos reagentes (convencionados como negativos) e dos produtos (positivos);
  • designa os potenciais químicos das espécies presentes no sistema reacional em dado instante.

A magnitude e o sinal de definem inequivocamente a dinâmica do sistema:

  • Quando , o sistema atinge o estado estático de equilíbrio químico preconizado por Gibbs, onde as tendências termodinâmicas se anulam mutualmente;
  • Quando , a reação prossegue espontaneamente no sentido direto (), impulsionada por uma tensão motriz positiva;
  • Quando , a reação só pode evoluir no sentido inverso ().

Pela primeira vez, a termodinâmica química deixava de ser um catálogo de estados finais estáticos para se converter em uma teoria de forças e fluxos dinâmicos.

A Produção de Entropia e a Flecha do Tempo

A Segunda Lei da Termodinâmica, tal como enunciada classicamente por Rudolf Clausius na fórmula , continha uma desigualdade incômoda para o espírito matemático: a desigualdade indicava o sentido das transformações naturais, mas silenciava sobre a taxa exata de geração de irreversibilidade.

De Donder quebrou esse impasse ao decompor a variação total de entropia () de qualquer sistema aberto ou fechado em duas contribuições aditivas de naturezas ontológicas distintas:

  • é o fluxo de entropia trocado através das fronteiras do sistema com o ambiente externo (podendo ser positivo, negativo ou nulo);
  • é a produção interna de entropia, decorrente exclusivamente dos processos irreversíveis que ocorrem no interior do sistema, sujeita à rigorosa restrição .

Ao associar a produção interna de entropia à Afinidade Química e à taxa de avanço , De Donder formulou a expressão exata da dissipação temporal de energia:

σ=diSdt=ATdξdt≥0\sigma = \frac{d_i S}{dt} = \frac{\mathcal{A}}{T} \frac{d\xi}{dt} \ge 0
Blog image

Solvay 1927 e a Transmissão do Bastão a Ilya Prigogine

No histórico 5º Congresso de Solvay de 1927, Théophile de Donder desempenhou um papel catalisador. Mantinha correspondência regular com Albert Einstein sobre a formulação variacional da gravitação e da eletrodinâmica contínua, buscando uma unificação elegante entre a relatividade covariante e a termodinâmica relativística. Para De Donder, a física não podia ser fatiada em gavetas estanques: as leis que curvam o tecido cosmológico e as equações diferenciais que regem a afinidade entre duas moléculas derivavam da mesma harmonia matemática profunda.

Foi nesse ambiente intelectualmente efervescente na Université Libre de Bruxelles que De Donder acolheu, no final dos anos 1930, um jovem e brilhante refugiado de origem russa: Ilya Prigogine (1917–2003). Impressionado com a profundidade do conceito de afinidade e com a formulação de , Prigogine abraçou o programa de pesquisa de seu mestre e o expandiu para horizontes até então inimagináveis.

Prigogine sistematizou primeiramente o regime linear da termodinâmica de não-equilíbrio (formulando o Teorema da Produção Mínima de Entropia). Em seguida, ao confrontar sistemas mantidos deliberadamente longe do equilíbrio térmico em regimes não-lineares, descobriu que as flutuações e a dissipação de entropia não levavam à desordem caótica, mas podiam originar padrões espaciais e temporais altamente ordenados: as célebres Estruturas Dissipativas.

A coroação definitiva do legado de De Donder veio em 1977, quando Ilya Prigogine foi laureado com o Prêmio Nobel de Química, dedicando publicamente a conquista ao arcabouço pioneiro erigido por seu mentor na Bélgica.

A Reconciliação do Homem com a Flecha do Tempo

A revolução epistemológica deflagrada por Théophile de Donder e consumada pela Escola de Bruxelas alterou radicalmente a nossa compreensão do cosmos. O mecanicismo reducionista dos séculos XVIII e XIX contemplava o universo como um gigantesco relógio de corda cuja mola se desfazia inexoravelmente em direção a uma 'morte térmica' fria, estéril e homogênea.

Ao demonstrar matematicamente que a produção de entropia interna em processos fora do equilíbrio () é a fonte primordial de fluxos, forças motrizes e diferenciação, De Donder revelou que a irreversibilidade não é uma imperfeição de nossas medidas nem um mero defeito entrópico: a irreversibilidade é a arquiteta da complexidade, da química viva e da própria consciência.

Théophile de Donder permanece como o visionário matemático que recusou o conforto dos estados estáticos, olhou nos olhos dos gigantes de Solvay e libertou a flecha do tempo para que a ciência pudesse, enfim, compreender a exuberância do devir.

A irreversibilidade desempenha um papel construtivo essencial na natureza. Longe do equilíbrio, a matéria adquire novas propriedades, onde o próprio tempo se torna criação.

Referências

De Donder, T. (1927). L'Affinité. Paris: Gauthier-Villars.
De Donder, T., & Van Rysselberghe, P. (1936). Thermodynamic Theory of Affinity: A Book of Principles. Stanford: Stanford University Press.
Glansdorff, P., & Prigogine, I. (1971). Thermodynamic Theory of Structure, Stability and Fluctuations. London: Wiley-Interscience.
Mehra, J. (1975). The Solvay Conferences on Physics: Aspects of the Development of Physics Since 1911. Dordrecht: D. Reidel Publishing Company.
Prigogine, I., & Stengers, I. (1984). Order out of Chaos: Man's New Dialogue with Nature. New York: Bantam Books.

0
0
Carregando...
Transforme Seus Estudos

Pronto para evoluir seus estudos?

Crie sua conta gratuita no ExaminLab para acessar simulados com IA, flashcards e acompanhar seu progresso.